Texto de Res, de 27 de outubro de 2018

Sábado à noite 

 

 

Quando a engenharia tem um limite

A garganta sem ar

A escrita sem cifra

O corpo pesado como chumbo

Simplificar a escrita até a dor moldar cada palavra - até não ter nenhuma poesia 

Até o ferro fervente do fatídico atravessar todo sonho

Gostaria de escrever um grande poema antes de morrer, um poema que desse conta de algo que não fosse eu.

Claro que isto é uma ilusão 

Pois tudo que vejo e sinto passa por mim, não consigo ser eu e não ser eu ao mesmo tempo. Não consigo ser uma criatura fora do meu campo de visão, quando digo eu já estou dizendo ou sendo uma restrição - portanto, ser eu implica em não ser outra coisa, não sei ser eu e ser outra coisa de mim ao mesmo tempo, isto foge de nossa cognição. Para ser outra coisa eu não poderia ser eu. Tenho coisas que me distinguem dos demais, isto já bastaria como cifra de separação: tipo de sangue, digital, gosto, cheiro, tipo de doença, sinais de nascença, voz, caracter, personalidade, cacoetes, enfim muitas coisas. Como dar um testemunho impessoal? Seria uma tremenda contradição. Como este texto se digitaria sozinho enquanto escrevo. Ou como ceder espaço para outra criatura escrever enquanto escrevo. Como estar diante de questões que ainda inquietarão criaturas humanas ao longo de muitos anos a nossa frente? Sempre quis entrar no tempo, no segredo do tempo, isto é: dialogar com meus pares que já morreram, ser uma criatura especial ou uma criatura que levou sua vida até o talo, que gastou sua vida nesta vida, que densificou sua permanência enquanto comia e cagava, sempre quis ser diferente, ter uma vida única, realmente pessoal, ou seja extraordinária. Construí-me para viver em acesso. Ser atravessado. E agora sinto o peso de ter querido o que não posso carregar. Os músculos estão estirados, não ouço vozes, não delírio, não posso culpar ninguém,

Não há ninguém nem nada a quem atribuir a culpa, não posso reclamar de que me falta alguma coisa, não tem queixa, não tem lamúria, não tem ninguém diante de mim ou atrás de mim que possa receber minha ira. Eu sou o único depositário de mim mesmo. Isto é: com toda vontade aniquilada. Como uma jovem senhora que dirigia numa auto estrada e de repente, no vigor máximo da vida, tem a vida arrancada dela num acidente letal, morte abrupta. Uma vida tirada nestas circunstâncias tem que ter um propósito, imaginemos que esta senhora agora está diante, ou do outro lado da vida, do que estava estipulado para ela, do outro lado - ela está em choque. E alguém comunica a ela que ela terá que começar de novo de um ponto que nunca existiu. Mais que isto, muito mais, interrompida a vida deste jeito ela não terá a mais remota ideia do que foi sua vida. Sua vida foi interrompida bruscamente exatamente para sabermos um pouquinho o que é o não saber da vida. Para investigar um lugar terminantemente proibido para o humano. Uma fratura na espinha dorsal do próprio entendimento. Isto é uma breve introdução ao texto que pretendo iniciar.

Texto aqui não é texto mesmo, mas contexto, isto é texto batendo sem piedade no texto até explodir o contexto - e o contexto virar pretexto de um dizer indizível. O que não quer ser dito nem vivido, nem tocado, estou trocando minha vida pelo toque no que não pode ser tocado, prefiro perder a minha vida a tocar o já tocado. Então que seja assim, começa aqui a troca da minha vida por uma linguagem intraduzível, um eu que eu sabia por uma criatura em estado de fratura, um olho conhecido, por um olho em acidente fatal. Um homem por agora uma criatura em tragédia permanente.

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