Outono

October 24, 2018

 

 

Texto de Rubens Espírito Santo 

Com muita fé ainda que mutilado

Dia 24 de outubro de 2018

Quarta feira (outono)

 

 

Sinto-me em

Cabeça aberta ao espaço descontínuo, onde.....

A letra, a música, o pronome.

O que nós nomeamos em nós: é uma ficção — o que nós nos referimos de EU ainda é sem “nós “. Uma escrita perfeita não deixa escapulir nada ( nem ortografia nem gramática ) para extrapolar o que tenho para dizer, devo antes humildemente saber escrever — isto é relinchar muito ainda em terreno estéril de mim, em terreno baldio de mim, fazer churrasco com carne de segunda mão para um único vizinho que não gosto - um gordo ensebado que mora do outro lado da rua. Sim, tenho uma rua e um endereço, um nome e uma profissão. Sei que não tenho a mim. Para ter a mim teria que ter abortado “o projeto de dar certo“ há muito tempo, e entrado na fila dos desempregados, numa manhã chuvosa, num sapato roto e com a meia molhada e rasgada e os pés congelando de frio. Apenas nesta fila longa e contínua do tempo, ao longo de um grande muro de pedra que nunca termina, percebo que posso passar uma vida, posso também sair da fila e dar certo. Insisto em ficar na fila, já sem quase força nenhuma, por um momento durmo em pé na fila encostado na pedra húmida da grande muralha, e sonho com o final da fila: o que vejo, um homem improvisou uma escada com restos de madeira e pedaços de corda e galhos de árvores e está subindo na muralha tentando pegar um atalho na imensa fila. Olho bem e ele está subindo, a medida que ele sobe a parede da muralha também sobe, ele ainda não se deu conta disto e continua, agora escalando a muralha desesperado com as próprias mãos, pois a escada acabou, enfia os próprios dedos como garras nos vãos da muralha, tanto os dedos dos pés como das mãos; escala depois de um tempo como um animal faminto, até que se dá conta, o muro grosso e intransponível não cessa de crescer com as investidas dele, a cada passo seu o muro sobe. Impiedoso ele sobe. Agora ele está tão alto que eu mal posso ver, mais parece um pássaro voando muito, muito alto. Acordo com o choro de crianças na fila, logo adiante de mim, com fome, a comida escasseou. Vejo muita gente abandonando a fila, não há mais o que fazer. Fora da fila cresce o número de atravessadores para o “dar certo na vida“ — são os coiotes-hienas que conduzem os desistentes da fila para uma velha van, assim que ela está abarrotada eles partem rumo à cidade nova, a uma nova vida, onde serão empregados e renumerados com casa e comida e liberdade. Na fila não há liberdade alguma. Na fila estou apenas no início de uma entrada ( posso ficar na fila como bem entender ). Não há proibições em como vou estar em fila. Eu por exemplo aprendi na fila a ficar muito silencioso. Comecei a ouvir meu batimento cardíaco, conheci uma linda menininha que faz crochê, tem gente muito legal na fila, não cheguei propriamente a fazer amizade, nem inimizade. Depois de muito e muito tempo na fila, já muito cansado e de cabelos brancos, muito brancos — um homem veio me receber e dizer que tinha chegado a minha vez.

Entrei por uma porta muito grande que se movia muito lentamente, ainda que ela fosse muito grande, tive que me curvar para passar nela, do outro lado, mal conseguia me mover, mal abrir os olhos. Já não podia ver mais nada, somente sentia que o homem me segurava para eu não cair. Neste exato momento então senti que não poderia ter sido diferente ainda que não entendesse mesmo de que modo. O homem que me segurava enfiou a mão em meu peito, introduziu algo que desconheço e me atirou no abismo.

 

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