O dizível

October 14, 2018

 

Rubens Espírito Santo

Dia 14 de outubro de 2018

 

 

Opto hoje por viver o possível até sua beirada extrema, achar o fio condutor até tudo o que devo pronunciar sobre tudo. Tudo: é simplesmente estar de olhos abertos para o que está fora de mim, só que um “fora“ que me contorna tão de perto que interfere em mim decisivamente. Dizível aqui é o que vai além de poder ser dito, é também confrontado ao meu corpo ( de tão rente ) esfola aquilo que teima em escapulir. Caça, alçapão, encontrar o veio de mim, não posso nesta existência deixar de me caçar, me encontrar, não quero desperdiçar esta vida, tenho que me encontrar. Achar, achar a coisa, entre tantos embrulhos, entre tantos desejos, entre tantos pertences, separar o que é meu e deixar o resto que não me pertence, ainda que seja muito sedutor estar com o que não é meu. Limpar meu caminho é abandonar o que não me cabe e ir até o limite máximo de dizer-me enquanto possível de mim. Quero viver o possível até seu limite, o que pode ser dito vou proferir, o que pode ser corpo vou viver enquanto corpo, enquanto experiência biológica do ser, enquanto organismo vivo pendente na árvore ontológica de ser, quero esgoelar-me, até o limite da matéria, assim quem sabe, vislumbre com o excesso da matéria viva o outro lado da coisa, isto é a carnatura que se faz gente.

Perco o fôlego diante da volúpia em dizer, dizer aqui é muito proibido, tão proibido que vou perdendo o fôlego em continuar, só assim sem fôlego para continuar a coisa viva se abre em carne viva do verbo para deixar de me expressar e começar sua viagem solitária até um mundo onde mesmo me digo de verdade, só com o abandono em dizer, o dizer é possível; só com a vontade reduzida em ser, o ser é encontrável. Neste nível de escrita, do outro lado da expressão de escrever, a gramática inicia o processo de ceder e então temos o dizível. O dizível é coisa que deu a volta, redondilha, se contornou, o dizível enfim mostra sua face — ela afunda-se entre o semântico e o semiótico, um rosto perdido para sempre entre duas coisas inconciliáveis. Entre o que tento saber e o signo puro, entre um corpo caído e seu algoz, entre mim e tudo que não sou eu, entre estar no mundo e estar em mim, entre eu e o outro, quando não percebo mais, quando a distância cai por terra, quando se está tão perto de você mesmo que dá susto. Assusto-me em ser eu — deste susto, percebo a língua, percebo-me em condições de dizer, só em me dizer, o mundo se diz em mim, escrito por ele, instaurado desta maneira no viver, a língua inicia seu processo penoso de descascar-se em pele viva, e o que sobra é o ser se remexendo ensanguentado em estado de verbo puro.

 

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