O desqualificado

August 28, 2018

 

1o texto de férias

23 de julho de 2018

 

 

Nesta semana, foram muito comoventes as demonstrações de amor, elas foram mais terríveis que as demonstrações de não amor. O desamor perdeu seu lugar no meu coração, a resistência se retraiu, a fratura no lugar único que poderia acontecer aconteceu, rompeu-se o dique da coisa grande dentro de mim: dentro de mim que fala na abertura, no aberto, o dentro do abrimento virou o meu dentro. O abertamento do mundo tomou conta de nós. E o seu fechamento rechaçado como tem que ser quando não é bem vindo, abrirão-se novas feridas, pois as velhas feridas estão sendo curadas, os estados estabelecidos estão ruindo dia a dia, seus postos rígidos erodidos, seus gabinetes, entrepostos, paredes doloridas por tanto tempo submetidos a um novo apreço, nova avaliação, a estadia do ser humano nesta plataforma de vida se ressignifica completamente para que a vida possa prosseguir seu rumo. Coisas importantes serão sacrificadas, nódoas limpas, membros significativos ruídos, extirpados, não adianta querer entender, entender é coisa do passado, caiu esta ferramenta da mala que foi aceita prosseguir. Arrancaram o entendimento da epistemologia do futuro. No lugar uma nova ferramenta foi introduzida, uma que terá um novo nome para cada situação, ela será contextual, dependerá do contexto para ser nomeada. Terá múltiplas funções e deveres e nomes de chamamento. Meu órgão de fé está brotando novamente. Quem diria que a chama não se apagou. A serpentina ainda funciona na velha construção. Mecanismos de busca insondáveis reaparecerão, novamente teremos o corpo em brasa, em fogo, em calor intenso, seremos novamente condutores de energia vital, assim atravessaremos este espaço rígido e sem suculência, vivos, em estado de hibernação, tanques nas costas cheio de combustível volátil, inflamável, biológico e imune, cápsulas especiais, contêiners. Seguimos pelo deserto equipados, robustos e ferozes em proteger a carga que nos salvará, defendemos a posição com nossa vida. Frágil vida. Vulnerável. Andamos, andamos, atravessamos ruínas, desertos, pontes quebradas, caminhos que não são mais caminhos, lugares que não dão mais passagem. Nosso destacamento. Seguimos em nome de uma coisa ainda sem nome, sem assinatura, sem classificação. Nossos corpos doloridos, nossas entranhas em estado de estupor. O medo nos deixou faz muito tempo. Acompanha-nos um felino. Meu destino não pode ser apenas eu. Meu destino não pode apenas estar em mim. Sempre posso dobrá-lo para mais longe, entortar a reta que me orienta, inverter a lógica, arrancar os sapatos do razoável e coçar os pés descalços. Arrancar a bota de cano alto, a roupa impermeável e adormecer. Mergulho muito fundo, meus olhos queimam, ardem, sobrevivo. Mesmo arrebentado sobrevivo, mesmo em estado de espancado: levanto-me e prossigo. Não posso recuar, recuar seria a morte agora. Preciso ir, preciso levar comigo os mantimentos, as provisões. Óbvio que sei que eu mesmo providencio-me a mim, sou a provisão que seguirá em frente. Beberei meu próprio sangue quando chegar a hora do desenlace final. É chegada a hora de cada um cumprir seu papel, ter sua fala esquecida e não a decorada. Abramos a porta que não aceita ser aberta. Não há outra saída: abrimos e estaremos no abertamento da língua. A língua que está por ser falada, língua ligamento de mim com o que não sei de mim em mim e do outro em outridade outramento intratável: desembuchamento da coisa em mim que sou eu: seja tudo que não aceito de mim, oculto de mim em mim — agora brota e me desenterra ainda respirando de uma sepultura funda. Quero acabar-me: estou no começo de mim. Resta-me a mim consumir-me.

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