Investigando o Poema Crematório 5 de Res

July 2, 2018

Anna Israel

01 de julho de 2018

 

 

 

  1. O que constitui uma obra prima? Quem sabe esse poema inaugure uma compreensão do que se trata isso que chamamos de “obra prima”. Talvez seja aquela que de algum modo, urge para existir a todo custo; esse poema já estava urgindo para existir há muito tempo nos últimos textos de Res, havia um sussurro desse poema, ele é um bicho que estava tentando se articular de algum modo através de muitos textos, onde Res começava criando a cerca para circunscrever o bicho, até que o bicho uma hora era cercado, ainda que não víamos por completo o bicho, sentíamos seu cheiro, apalpávamos sua áspera pele, e de sobressalto ele sumia, deixava somente a dúvida se era aquilo mesmo que havíamos experienciado. Percebo, porém, o Crematório 5 como uma passagem, o momento onde o bicho mesmo se incorpora no suposto autor e assim profere através dele. Aqui não há a construção da cerca, não há a luta com o dizer, não há a sobra, não me parece haver “struggle” entre dois mundos para que algo impossível seja espremido pra fora da pele do possível. Aqui, nesse poema, há mesmo um outro tempo sendo instaurado diante de nós. O Crematório 5 não é um poema, senão um espaço com o seu próprio tempo, uma válvula que se abre, bem pouquinho, e solta um gás que vai ocupando o espaço e entorpecendo os presentes. Estamos todos nós sendo cremados; o Crematório 5 vai se construindo no espaço e lentamente carbonizando nossos corpos, um por um, mesmo aqueles que pensam não estarem sentindo, vai queimando a carne e permitindo que por um milésimo de segundo, experienciemos a morte em carne, experienciemos o descontínuo em vida, por um milésimo de segundo, escutemos o canto do muçulmano de nós sendo proferido.

  2. Existem muitos tipos de textos. O texto analítico / crítico, aquele que quer ainda dizer ou comunicar muitas coisas e aquele onde não há mais comunicação nenhuma, que acredito ser muitos dos textos de Res, onde a vontade de dizer foi sacrificada para que outra coisa tome lugar dela, quem sabe o próprio dizer tome conta do texto, a própria insuficiência se descreve, faz uma autoanálise de si mesma no texto - isso em si é uma manobra assombrosa. Penso porém, com o Crematório 5, que ainda há muitos outros lugares em que o texto pode se escrever, se inscrever, se incrustar. Com o Crematório 5, percebo que o texto que “não comunica nada” é como um último estágio, uma última fase, o último porteiro que se atravessa daquele que “diz”. Depois passada essa porta, abre-se uma porta terrível, a porta de quem pode viver “com os olhos fechados”, segundo René Char. Esse espaço não mais faz parte da categoria do ser falante. Esse espaço é o espaço do próprio falando em si em profissão dele mesmo, é o espaço falando, aqui não há mais sujeito falante, aqui o sujeito foi completamente sacrificado (que explica muito o que aconteceu com Hölderlin, no caso - por isso, muito me interessa pensar as manobras feitas no próprio texto, assim como na vida de Res, para que ele possa continuar, mesmo tendo passado pela porta do último porteiro da categoria do que é possível - ou seja, Res atravessou para a porta do impossível, a porta que na verdade não existe, mas se não existe, como então ele passou por ela? Res atravessou pela porta que não existe, me parece bem preciso dito dessa forma.

  3. Onde estão os crematórios 1 e 2? Res fez uma manobra que parece que eles existem. Esses textos se encontram em algum lugar - os ouço sussurrando em meu ouvido. De algum modo, há algo no Crematório 5 muito poderoso e sutil, um espaço que foi aberto nesse poema, que transforma a ausência dos crematórios 1 e 2 em algo muito material, algo muito carnal. A ausência destes não passam a se manifestar enquanto algo necessariamente vazio, mas é uma ausência que está preenchida nesse espaço vazio, uma ausência que está ocupada pela própria ausência, fazendo com que, nesse caso, a ausência seja algo extremamente presente.

  4. Res encontra anteparos para a vida, para essa vida que ele cerca nos textos. Como sua roupa, seu disfarce, o tênis da Camper, óculos Tom Ford, a camisa passada, o chapéu de rabino, são todos estratégias para desviar o olhar do sujeito para a tragédia que ele carrega, mas sem os anteparos, essa tragédia não teria onde se sustentar, ele precisa do disfarce. O ser humano precisa ir em direção ao que é eterno, mas ele sim é finito, mas sem a interrupção que seu corpo faz ao eterno, não haveria a coisa. O texto tem a ver com isso, mas é quando o disfarce (a palavra) e a vida se fundiram de tal forma que ele consegue o impossível, que é dar vida à própria morte - reverter a morte - reverter a ausência para algo presente - dar vida àquele corpo que está sendo cremado, dar forma às cinzas do fogo.

  5. Profunda sensação de terror instaurada - atmosfera de terror - há algo, não “no que está sendo dito”, mas o próprio dizer do poema é um território muito perigoso, é muito proibido o ler. Sinto que estou cometendo um crime ontológico ao terminar a sua leitura em minha cabeça, sinto que acabo de cometer um crime, sinto medo de minha punição por ter passado pelo texto, como se eu tivesse passado por um território proibido, e agora aguardo as consequências. O texto é esse território proibido.

  6. Há textos que precisam ser lidos alto, que a sua profissão é essencial para o que diz. No caso do Crematório 5, acho ele um texto muito íntimo, muitíssimo difícil de ler alto. O texto é as vozes em minha cabeça que eu nunca escuto, mas que estão lá o tempo todo dizendo. É o sonho do qual, ao longo do dia, me lembro de relances, de flashes, em fragmentos, mas que não consigo estruturar por inteiro.

  7. O texto parece dialogar mais comigo quando eu estiver dormindo. O texto faz sentido mais quando não estou acordada, ele faz mais sentido quando não estou pensando nele, estar pensando nele é o interromper de estar em acontecimento. Porém Res arranjou um modo de burlar essa contradição. Consegue dizê-lo e mesmo assim estar o dizendo, consegue capturar o dizer que não disse no instante que disse.

  8. Crematório 5 = inconsciente de Freud

  9. Invenção de um estado de graça 

  10. Contexto - Res inventa não um texto - Res inventa um contexto - escreve um contexto - pedir livro do Benveniste emprestado para Res - estudar isso melhor

     

     

     

     

     

     

     

     

     

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Recentes

October 24, 2018

October 22, 2018

October 16, 2018

October 16, 2018

October 16, 2018

Please reload

Arquivo
Please reload

Procurar por tags
Please reload

Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square

Atelier do Centro - G1

Rua Epitácio Pessoa, 91, República, São Paulo

3129-3977 // 99537-5396 (RES)

Segunda à sexta: 8h às 17h

atelierdocentro@gmail.com

Galpão do Centro - G2

Rua Teodoro Baima, 39, República, São Paulo

CECAC - Centro de Estudos Conglomerado

Atelier do Centro - G4

Rua Teodoro Baima, 51, SL 1, República, São Paulo

Atelier do Centro - G5

Rua Teodoro Baima, 88, República, São Paulo

Coleção Àlex Muñoz - G6

Carrer del Segle, 5, Premià de Mar

08330 - Barcelona, España

OPCAC - Oficina Prática Conglomerado Atelier do Centro

Rua Teodoro Baima, 39, República, São Paulo

www.opcac.xyz

Vernacular - Editora Atelier do Centro

www.ccsvernacular.com

www.medium.com/@carolccs

  • YouTube
  • Instagram