Crematório 3

June 25, 2018

Texto escrito em Belém do Pará, em 23 de junho de 2018 - sábado

 

 

 

 

Assim, assim, assim...mesmo ainda que não seja o que eu quero estou sendo, à revelia da onda, estou indo em direção a coisa minha que importa, mesmo não sendo tudo que imagino estou aqui, um vento forte bate em minha têmpora: saio de mim, faço um esforço atroz para ter um tema que não seja eu, para estar num ângulo de visão que não seja o meu, desobstruir meu olhar, desempacotar minha sensibilidade, desempacar minha autoestima, somente estando do outro lado de mim poderei ouvir-me, tirar a mordaça que me impede de falar o que vim falar que obviamente não é o que estou falando, porque sei que existe algo entre uma palavra e outra que me escapa, quero apreender a palavra que me escapa, na verdade quero apreender uma gota de sangue que me escorre do nariz quando tinha 6 anos de idade, a memória de um garoto que morreu asfixiado num barranco, numa escavação improvisada, num sonho, num sonho que quero tirar de entre uma palavra e outra, aprender este espaço cru, impossível, inverossímil, inexistente, só fora-eu posso inventar este espaço, se este texto não for capaz de criar este espaço-fora, este texto não é um texto, não existe língua, não existe comunicação, não existe homem sem a ideia de homem construída num buraco de texto, trincheira, guerra, desandar, desastre, fúria, fracasso, expurgo, ruína, miséria. Minha viagem ao centro da palavra, ao espaço exíguo, à epígrafe, ao Igarapé semântico, ao atávico, ao pontífice, ao ataúde. Um homem de preto assiste a uma incineramento do corpo de um indivíduo, há um pequeno cortejo. Muito sol, num cemitério de beira de estrada, a maldita palavra impronunciável me escapa, muda, calejada, se esconde como um bicho assustado, o texto também se esconde, a criatura texto se esconde, não é fácil escrever, não é fácil se comunicar, não é fácil falar, não é nada fácil ouvir o respirar da criatura textual, farejar seu cheiro por baixo do asfaltamento, há um campo sendo escrito por debaixo deste texto que preciso perfurar, —-água cristalina escondida —-minha sonda, o que disponho é a máscara, preciso fazer com que a máscara me desmascare, preciso fazer a manobra de me desocultar, e ao me desocultar, saber que estou me ocultando novamente, descobrir um campo, uma clareira na sujeira do que eu digo e faço, não é moleza, a revelação insiste em se mascarar, não sei porque é tão difícil aparecer o que importa. Clareira. Neste texto achar o sentido maior de escrever, de perceber o que se oculta, o que se rebela, o que não poderá ser revelado nunca, o que é pura ilusão, o que se desmancha, se arruina perante o tempo. Que palavra restará depois disto tudo? Que palavra não poderá ser consumida pelo verme do passado, de ser obsoleta, assim que escrita? Que palavra resistirá a tentação de comunicar? De dizer? Que palavra pulará para fora do ataúde do tempo e dirá o proibido de mim? Entro num lugar do texto que ele se escreve sozinho, agora passo a ser inscrito por mim, e não mais me dizer, a fluidez do texto me ingressa num outro campo semântico de mim: assim posso querer dizer o proibido, o incesto de dizer, o incesto escrito, o incesto fálico de mim. O estupro vocálico, vocábulo de mim bipartido, rosca linguística usinada num torno impossível, somente criado num contexto sem contexto, o texto aparece e desaparece, fica cada vez mais difícil aprender o espaço exíguo entre eu e o que quero dizer. O que quero dizer num cabe num vão de palavra, entre uma sílaba e outra, entre um impossível e outro impossível jorra a palavra fatídica que me libertará de mim mesmo, espremida entre um espasmo de verdade e um espasmo de beleza, urra a impermanência do que tenho que estourar entre um dizer e outro dizer de Vulnerabilidade absoluta. Romper o dique de dentro do que está sendo escrito, só assim mergulharei no meu derradeiro destino: a palavra fatídica.

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