Mais uma tentativa de expor meu méthodo de ensino de arte

June 3, 2018

2 de junho de 2018

 

Na verdade uma tentativa de expor o que eu penso de educação, de arte, de mim, de você, da palavra tão explosiva que é a palavra mestre no nosso tempo. A palavra discípulo é quase um palavrão, uma ofensa ao caracter tão autônomo do nosso tempo, um tempo tão escasso de profundidade, como a matemática prefere: trivialidade. Um tempo trivial diria a matemática. Enfim o que é o méthodo? O que é minha produção plástica? O que é meu desenho? O que é o Atelier? Como explicar para alguém que não vive esta experiência, esta experiência? Como colocar alguém em comunhão com algo tão visceral estando longe desta experiência ele mesmo? Como escrever com paixão sobre isto? Como expor meu amor pelo que faço? Como escrever de forma que a própria escrita seja já meu depoimento do que sou eu, fazer do ato mesmo de escrever o que estou querendo transmitir? Enfim mais uma vez: mestre e discípulo relação fundamental no Atelier e no méthodo, lugar de transição entre dois tempos, um que está agonizando, dando seus últimos espasmos, e um outro tempo que é recém nascido, verdade robusta, como disse a Giulia, ou verdade robusta e dura como quer Newton da Costa, um dos maiores lógicos do mundo que por ironia é brasileiro, o méthodo tem muito a ver com um conceito robusto de verdade, expressão usada por Newton da costa, o conceito robusto de verdade não faz concessão, não barganha, é seco, duro, implacável, mata. O méthodo também é um instrumento de investigação científica de estética, do fazer estético, estabelecendo critérios rígidos num pântano lamacento de incertezas que é a arte e o fazer estético do nosso tempo, para o méthodo não ser um aparato alienante se baseia no pensamento de algumas das mentes mais poderosas do nosso tempo em história da arte e da ciência, como Newton da Costa, Warburg, Gell. Para não estender a lista e ficar chato. Relação esta que é eminentemente pragmática, isto é, se dá na vida diária, na rotina de trabalho, isto é limpar a merda, deixar a sujeira no seu lugar, escandalizar por não ser colonizado, se esforçar por ter bases sólidas par verificar algo, estabelecer parâmetros altos de comparação, quero mesmo o impossível, dialogar com Goya, Velásquez, Matisse, Francis Bacon, Cézanne. O método não arreda pé de um lugar ambicioso, quase fanático, quase mirabolante, quase circense, quase nada de ordinário, o método é incerteza cortando a carne morta da certeza, odeia lugares fixos, da polaridade, o método é ambíguo, cheio de trapaça, contradição, para apelar e conquistar o ódio e o desprezo dos meus interlocutores, diria que o método é sujo, uma sujeira do tipo João de Deus, eu sou o Espírito Santo, preciso assumir que vim ao mundo com uma missão, conversar com os jovens, arrancar deles o amor necessário para que o mundo nunca mais seja o mesmo, para que possamos respirar embaixo d’água. Atravessar paredes, levar tiro no peito e sair andando, invisto meus recursos mais sagrados para que meus discípulos possam mergulhar em terra firme e emergir no meio da água, mergulhar num lugar e brotar em outro, deixar a palavra dizer o que ela mesma quer comunicar, não ser despótico, o que eu quero dizer de mim que não digo, sei que a palavra vai dizer, amontoadas as palavras sucessivas irão encontrar seu destino verdadeiro, ainda que por baixo de algo, submersa a palavra irá comunicar sobre o método, trago a mensagem, endereço de um fim, suposto fim, irritadiço o fim se aproxima, a casa está em chamas, não há tempo hábil de cavar o poço ôntico da palavra morta, corpo agonizando seus últimos instantes de algo insustentável, deslizo sobre o gelo, percorro sem medidas este terreno ainda estéril, a paisagem da vertigem, o que acabou me aterroriza, o mundo novo ainda sussurra suas palavras inaudíveis, misturam-se as coisas, embaralhadas, tortas, insípidas, tudo parece um grande sonho não sonhado, meus dedos escrevem sem nódoas, vazio, vazio, vazio.

A isto, contra isto, proponho o método, o sol, o meio dia. O método queima a pele viva, incide o sol, deriva menos um, solapa, invade, atravessa, rompe.

Caralhada de nada, escrever, escrever, ver, escrutínio, escrever, rever, incidir, resistir, infiltrar, escrefuçar a escrita até algo aparecer ser o método, fazer o método ser aqui, desembuchar o méthodo dele mesmo, escrever erguer esgueirar Tiresias, Creonte, Antígona, ”até“, gregos, eles os alienígenas, eles os homens humanos, eles os homens humanos desumanos, eles os homens em agonia, eles amargam. Eu aqui preso sem liberdade alguma entre uma parede de concreto da língua e outra parede líquida do que não sei, cercado e oprimido pela própria força de ser incompleto e insuficiente, de ver e presenciar a insuficiência de tudo, estou ciente, decair, a escrita dá um banho em mim, sucedo fracassos até a coisa vazar à minha revelia, até nascer algo aqui que escapou do meu controle filho da puta, pulou o sentido da frase, escapuliu meu eu de mim, destituída a letra se submeteu a uma cirurgia de troca de sexo, trasvestida minha infância de mim soltou, idade de pedra rompeu-se, cortina caiu, antes da hora do espetáculo, a cartola soltou um grito de terror, invadido o monstro marítimo desliza pela areia do fundo de meus olhos. Contenção, represa, dique, agora a dinamite escondida e armada embaixo da ponte onde vai passar o carro oficial do deputado, do senador, do primeiro ministro do discurso aturdido, a comitiva oficial da arte está passando, o comboio ministerial da arte, o cortejo de algo despossuído, o cortejo fúnebre, a ponte está prestes a explodir com seu séquito, que merda de texto, quero explodir o texto, a ponte que me liga ao mundo, quero viajar para além da conexão que conheço, quero não voltar mais desta viagem, ir para sempre, fazer a viagem definitiva de Holderlin, sim o méthodo é isto: um jeito de voltar de uma viagem sem fim, que acabaria mal, um fio de Ariadne do nosso tempo ao lugar inacessível de nós mesmos.

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