Carta a uma jovem indecisa

May 14, 2018

Revisado por CCS

 

 

Nós nunca escolhemos entre a esquerda e a direita: escolhemos na verdade sempre o que está fora, isto é, o que não é nem esquerda nem direita. E o que não é esquerda nem direita em questão aqui mesmo ? É decidir: e para isto nem sempre é necessário escolher, há sempre algo que escapa das decisões que eu poderia tomar, que fogem de mim, do meu alcance, do raio meu de percepção. O que estou a chamar de fora  seria uma outra via de mim em mim. Minzinho de mim minzão. Descabelado, descabado, mancebo, cabaço — descabaçado / envolto num manto enorme de folhas da natureza saio para decidir meu destino. Empunho a espada de luz da floresta que brota quando estou em perigo. Como agora. Meu pedido é: O que devo atender? Qual estrada caminhar? A de cascalho grosso, de pedras agudas e perfurantes, ou a estrada asfaltada e pavimentada onde eu seria somente mais uma. Vale a pena tentar ser eu, andar por mim mesma, investigar meus recônditos mais secretos, evocar meu Lobo interno, chamar minha lua, implorar para que meu elefante sagrado fale comigo ou seguir rolando escada abaixo as convenções? Mesmo com hematomas de quem apanha por estar seguindo o que não é seu — seguir em frente no vácuo das perseguições familiares e expiações ancestrais, insistir em ser colonizado e engrossar a fila dos que que acham que todas as soluções para o Brasil estão longe do Brasil, ou seja, qualquer solução para um brasileiro está em qualquer lugar menos no Brasil. Menos na nossa escultura negra de madeira dura e forte de raízes a serem descobertas por quem aceita ficar e lutar, lutar para forjar uma arma capaz de riscar o casco duro e intransponível de ser brasileiro, de dizer em brasileiro português, riscar o casco crocodilo da maldita insegurança ser quem somos, só sendo quem somos ainda que insuficiente, ainda que seja só um passinho, um dia vamos dar o passo que seja a agregação de muitas pessoas que não desistiram de dar o seu passinho, e o seu passinho um dirá fará o grande passo. O grande passo só pode ser o passo de cada dia de cada um de nós. Indecisão não é ruim, é o que antecede a decisão, decisão é o fim da cisão, da separação, assim: decisão nada mais é do que aquele que não quer mais ser separado do que mais lhe importa, quem decide costura, sutura, decidir é um tecido que corre o vento, é fala falada não para o outro mas para você mesma, é quem aceita conversar consigo antes de bradar para o outro um monte de mentiras que ele não teve coragem de esclarecer com ele mesmo, geralmente quem dá conselhos mente para ele mesmo, quem quer ajudar está perdido, desconfie de quem te oferece ajuda, quase sempre ele está mais perdido que você, quem fala muito não quer ajudar, mais vale o silêncio que inaugura a não omissão. O silêncio portentoso de quem ficou quieto quando tinha ódio no coração, e aprendeu a destilar seu ódio antes de falar, então a fala é cristalina: este ser nunca dá conselhos, ele propõe para você jovem indecisa que ouça o vento, que você suba na montanha mais alta do seu coração e fique ouvindo o som que não está perdido do seu mantra ancestral e atávico, que só você poderá lá ouvir e ele te trará todas as respostas mais cabeludas.Carta a uma jovem indecisaDe Rubens Espírito SantoDia 14 de maio de 2018Revisado por CCS Nós nunca escolhemos entre a esquerda e a direita: escolhemos na verdade sempre o que está fora, isto é, o que não é nem esquerda nem direita. E o que não é esquerda nem direita em questão aqui mesmo ? É decidir: e para isto nem sempre é necessário escolher, há sempre algo que escapa das decisões que eu poderia tomar, que fogem de mim, do meu alcance, do raio meu de percepção. O que estou a chamar de fora seria uma outra via de mim em mim. Minzinho de mim minzão. Descabelado, descabado, mancebo, cabaço — descabaçado / envolto num manto enorme de folhas da natureza saio para decidir meu destino. Empunho a espada de luz da floresta que brota quando estou em perigo. Como agora. Meu pedido é: O que devo atender? Qual estrada caminhar? A de cascalho grosso, de pedras agudas e perfurantes, ou a estrada asfaltada e pavimentada onde eu seria somente mais uma. Vale a pena tentar ser eu, andar por mim mesma, investigar meus recônditos mais secretos, evocar meu Lobo interno, chamar minha lua, implorar para que meu elefante sagrado fale comigo ou seguir rolando escada abaixo as convenções? Mesmo com hematomas de quem apanha por estar seguindo o que não é seu — seguir em frente no vácuo das perseguições familiares e expiações ancestrais, insistir em ser colonizado e engrossar a fila dos que que acham que todas as soluções para o Brasil estão longe do Brasil, ou seja, qualquer solução para um brasileiro está em qualquer lugar menos no Brasil. Menos na nossa escultura negra de madeira dura e forte de raízes a serem descobertas por quem aceita ficar e lutar, lutar para forjar uma arma capaz de riscar o casco duro e intransponível de ser brasileiro, de dizer em brasileiro português, riscar o casco crocodilo da maldita insegurança ser quem somos, só sendo quem somos ainda que insuficiente, ainda que seja só um passinho, um dia vamos dar o passo que seja a agregação de muitas pessoas que não desistiram de dar o seu passinho, e o seu passinho um dirá fará o grande passo. O grande passo só pode ser o passo de cada dia de cada um de nós. Indecisão não é ruim, é o que antecede a decisão, decisão é o fim da cisão, da separação, assim: decisão nada mais é do que aquele que não quer mais ser separado do que mais lhe importa, quem decide costura, sutura, decidir é um tecido que corre o vento, é fala falada não para o outro mas para você mesma, é quem aceita conversar consigo antes de bradar para o outro um monte de mentiras que ele não teve coragem de esclarecer com ele mesmo, geralmente quem dá conselhos mente para ele mesmo, quem quer ajudar está perdido, desconfie de quem te oferece ajuda, quase sempre ele está mais perdido que você, quem fala muito não quer ajudar, mais vale o silêncio que inaugura a não omissão. O silêncio portentoso de quem ficou quieto quando tinha ódio no coração, e aprendeu a destilar seu ódio antes de falar, então a fala é cristalina: este ser nunca dá conselhos, ele propõe para você jovem indecisa que ouça o vento, que você suba na montanha mais alta do seu coração e fique ouvindo o som que não está perdido do seu mantra ancestral e atávico, que só você poderá lá ouvir e ele te trará todas as respostas mais cabeludas.

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