Sobre a sessão de desenho de Res - 27.02.18

March 14, 2018

 

 

Depois de dois meses, após a produção de 17 desenhos da série Desenhos Descontrolados e 10 da série Desenhos Invisíveis, nos 5 desenhos intitulados Antígeno – que fazem parte dos desenhos invisíveis - Rubens volta a usar a mão para agir nos desenhos. Uma forma de sempre ir contra o que quer, contra sua vontade, para desenhar, ele usa de diversos artifícios, como nas últimas séries as tintas penduradas, a plataforma para os desenhos, a máquina de desenhos e a carabina. A carabina até então era a única ferramenta empunhada, o mediador direto entre Rubens e o papel. O mediador que possibilitava um tipo de descontrole.

Os artificios usados por Rubens, são dispositivos para rebentar a carga explosiva já existente nele. A pouco tempo atrás, ele ainda dizia que sua mão pensava sozinha, como se a mão tivesse se descolada do sujeito Rubens para ser seu próprio sujeito, hoje diz que sua mão não tem mente.

 

Um antígeno pode ser classificado em dois tipos: Imunógeno ou Hapteno. Quando a fase de reconhecimento falha - reconhecendo algo do próprio organismo como não próprio - caratacteriza-se em autoimune (antígeno Imunógeno). Que são doenças que surgem quando a resposta imunitária é efetuada contra alvos existentes no próprio indivíduo.

 

Rubens constantemente provoca uma doença em seu corpo. Altera parte de seu organismo para que este não seja reconhecido pela grande massa já estabelecida, provocando um tilt. Um movimento desconhecido entre suas partes. O que foi um dia a mão de Rubens, hoje é só mão. Como um copo é só um copo, e dentro do universo que é só ser uma mão, ela tem infinitas possibilidades além da relação Rubens e sua mão.

 

A verdade é que não consigo olhar esses desenhos.. Eles fazem meu coração palpitar. Eu vi Rubens fazer esses desenhos. Sou sua assistente, existem vídeos do processo, O QUE É QUE NÃO CONSIGO VER? O que está num intervalo de cada segundo que Rubens se move?

 

A verdade é que sou uma dissimulada. Construi uma pele, uma pele como uma cobra, ou uma lagosta que a abandonam quando seu corpo cresce e não suporta mais aquele pequeno espaço, mas diferente deles, eu não a deixo para trás, eu não a reconheço, eu a

carrego junto de meu corpo, a mantenho para não enxergar através dessa pele neblinosa.

E então me deparo com Rubens e seus desenhos, que vira do avesso essa pele e expõe para todos. E uma grande diferença entre nós, é que Rubens sabe que não dá para abandonar essa pele, ela vai soltar de seu corpo e ele vai seguir seu caminho.

Sempre há uma parte encrostada, uma película viscosa, nojenta, que é parte constituinte dele. E que essa parte viscosa, ao longo dos anos, escorregando, se fudendo, é uma camada que protege seus órgãos internos, que sem ela ele não seria.

 

Todas as vezes que consigo me olhar um pouco, é horrível. Me percebo vulgar, me percebo podre, um porco espinho com seu corpo frágil, que qualquer ameaça - real ou imaginária, principalmente imaginária - se arma contra qualquer coisa externa. Enclausurada vendo minhas deficiências, me torno o centro do mundo. Equipada até os dentes para que ninguém me tire desse posto.

 

“Esses desenhos tem uma aproximação com a natureza, como um furacão

na cidade, deixando muitas pessoas desamparadas, ou como

uma tempestade que tira a vida de crianças que vivem na rua”

RES

 

Rubens sabe de sua tragédia, mas também sabe da tragédia do mundo, da realidade, que é maior que ele. Assim como as formigas fazem parte da constituição do mundo, ele é mais um membro dessa constituição.

Algo que o possibilita entrar em contato com o homem de 64.000 anos atrás, com sua semelhança genética já extinta.

 

“Rochedos audazes, sobressaindo-se por assim dizer ameaçadores, nuvens carregadas acumulando-se no céu, avançando com relâmpagos e estampidos, vulcões em sua inteira força destruidora. Furacões com a devastação deixada para trás, o ilimitado oceano revolto, uma alta queda d’água de um rio poderoso, etc. tornam a nossa capacidade de resistência de uma pequenez insignificante em comparação como seu poder.

Mas o seu espetáculo só se torna tanto mais atraente quanto mais terrível ele é […] ”

Immanuel Kant, crítica da faculdade do juízo

 

Os desenhos rupestres feitos a séculos atrás, ainda muito desconhecido ao homem moderno, mostra imagens da natureza, símbolos, mapas, grafias abstratas, codificada para aqueles não viveram naquele contexto.

Depois de 64.000 anos, essas imagens de alguma forma surgem

nos desenhos de Rubens. Uma árvore, um raio, 4 peças que

juntas parecem uma cartografia de um território impossível.

 

Rubens levou anos para construir o contexto em que essas imagens podem ser vistas. O pioneiro, o desbravador que mostra o mapa da terra que pisou e que como os desenhos rupestres ainda indecodificáveis a nós, permaneça desconhecida até o dia em que pudermos gerar anticorpos não mais para nos proteger de um perigo externo, mas para desabilitarmos de nós mesmos.

 

“ […] O povo que falta, isso quer dizer que essa afinidade fundamental entre

a obra de arte e um povo que não existe ainda não é e não será jamais clara.

Não há obra de arte que não faça apelo a um povo que não existe ainda.”

Gilles Deleuze, O que é o ato de criação?

 

 

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