Sobre a sessão de desenho de Res - 06.03.02

March 14, 2018

 

O que Rubens quer dizer quando intitula sua última série de Desenhos

Desconhecidos? Ou que sua obra só vai ser compreendida daqui 100 anos?

Segundo a medicina, existe uma deficiência visual nomeada de Agnosia visual.

Nosso olho funciona como uma ferramenta, com diversos mecanismos para que funcione, mas como qualquer outra ferramenta, alguém a con duz. Ligados a cada parte do olho, neurônios e nervos fazem a ponte para a comunicação para o cérebro, o condutor, que monta as imagens e

estabelece relações com a memória. Capaz de a partir de um fragmento, ou decomposição de imagens, reconhecer algo a partir de um número limitado de informações.

Rubens sempre fala que quando seu banco de dados de imagem não reconhece o que está no papel, o desenho está pronto. E de alguma forma, a cada sessão, ele sempre consegue chegar nessas imagens desconhecidas.

 

Relações entre Rubens e esse desconhecido impresso em papel, travam

relações que passam pelo cérebro dele e algo mais além de sua biologia.

 

“αγνωσια Agnosia (do grego antigo a+gnosis, não conhecimento) na perda ou deterioração da capacidade para reconhecer ou identificar objetos apesar de manterem a função sensorial intacta (visão, audição e tato).

 

[...]

Agnosia se restringe aos casos onde estão conservadas a integridade das vias nervosas aferentes e existem lesões corticais na vizinhança da área de projeção, nas chamadas áreas parassensoriais, mantém-se a integridade das sensações elementares, porém, há alteração do ato perceptivo. Ou seja, não pode ser causada por dificuldade em ver, ouvir ou tocar. “

Wikipedia

Ao conviver com Rubens, me percebo como um ser que não escuta, não fala, não vê. A integridade das minhas sensações elementares aparentemente se encontra em perfeito estado e o ato perceptivo também, segundo todos os exames que médicos analisaram. Mas porque depois de conhecer Rubens, sinto que todo esse sistema esta comprometido?

Sim, existem diversos fatores que influenciam terrivelmente nesse quadro. Como ser brasileira e tudo que implica em ser brasileira. Rubens também é brasileiro, vem de uma família de situação econômica mais frágil que a minha, nasceu no interior de São Paulo, parou de frequentar a escola ainda menino, e com todas essas condicionantes consegue deslumbrar um espanhol.

 

“[...] foi chamada de agnóstica a posição de Spencer, que na primeira parte de Primeiros princípios (1862), pretendeu demonstrar a inacessibilidade da realidade última, isto é, força misteriosa que se manifesta em todos os fenômenos naturais. [...] essa palavra foi estendida para designar a doutrina Kant, porquanto esta considera que o número, ou a coisa em si, está além dos limites do conhecimento humano. [...] Agnosticismo não deve ser confundido com ateísmo, pois uma coisa é dizer que Deus não existe e outra é dizer que não possuimos instrumentos cognitivos adequados para nos pronunciarmos com certeza acerca da existência ou não de Deus.”

Nicola Abbagnano, Dicionário de Filosofia

Acho que Rubens entendeu muito cedo que nossos sentidos, para serem desenvolvidos não dependem somente da genética, da biologia, mas de algo além ciência. Que nosso olho pode nos enganar, que a leitura visual de uma superfície não necessariamente a revela.

Eu, por andar, sangrar, cagar, transar, me acho dona desse corpo, por ter olhos e reconhecer a silhueta das coisas, falo com a mesma certeza de que este corpo é meu, vejo um copo em minha frente. Mas um investimento exacerbado tem de ser feito todos os dias em si para ir contra o

conforto do que já é dado só por ser um homem.

 

Imagino que em povos antigos, essa consciência de que habitar um corpo não significa que você seja apropriado dele, era totalmente presente e tudo em sua cultura era mestrado para que eles pudessem existir.

Quando Rubens diz que sua obra só vai ser reconhecida daqui a 100 anos, pode ser que o homem entre em colapso por ter achado tanto tempo que viu, que escutou e que falou, que o corpo, que o espirito já foram conquistados só pelo fato dele poder respirar e se manter em pé, um trauma o violente de tal forma, que ele entenda que tem de conquistar

a vida.

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