A noite das palavras

March 14, 2018

 

Sobre a Sessão de desenho de sexta de RES

 

Éramos jovens. E os jovens parecem não dar importância a nada, a não ser ninharias. Sabem revesti-las com uma profundidade trágica, e isso é o mundo. Pois, no final das contas, a realidade não tem nada de particularmente profundo. E quando você atinge a realidade, por volta dos 40, 50 ou 60, descobre que ela tem apenas sete palmos de profundidade e 18 de comprimento.

Faulkner, Mistral

 

Os grandes artistas só devolvem a humanidade que você já tem.

Res

 

Em nosso suposto silêncio, encadeamos palavras, empilhamos frases e, mesmo com tantos indícios e algum incômodo, apenas suspeitamos que este silêncio é de fachada; estando em descontrole, ele fala demais. Sua linguagem caótica e ruidosa, controlada pela grande falta de apoio às palavras, que, por sua vez, recorrem, desesperadas, a estar num fluxo onde batem umas nas outras, desvia-nos do objeto causador de desespero, e elas, ao servirem-nos de alimento ao hábito desesperado, tapam nossos sentidos, não desregrando-os, o que seria uma boa opção, mas os fazem parar de funcionar. Sua única ordem é estarem em movimento entrópico e simularem uma fuga para deixar-nos em um, também, suposto movimento. Assim, elas nos ensinam a nos enganar, e, na vontade de suprimir a dor, conduzidos ao que se parece ser uma ação, achamos estar fazendo algo – mas o que fazemos, no final das contas, é: deixar de ver.

Sobre o desenho de Res

O desenho não se trata de um encadeamento de camadas de cor. Não se trata de higiene visual, não se trata de design. Trata-se exatamente de um outro tipo de controle: o de abrir a porta e liberar o poder dessas palavras que já não mais correm, mas encontram-se paradas em seus lugares; elas já não mais gritam, mesmo quando poderiam chamar ambulâncias por estarem feridas; não o fazem pois sabem que seu estado é incurável e constituinte – devem, portanto, fazer algo – sua vida – com ele.

O desenho não se trata do desenho – mas sem ele, não seria possível executar; não executar o desenho, mas executar aquele que podia pensar que o desenho é como um caminho para uma liberdade. Executando-o, é possível ver que a liberdade – sua tragédia – já está posta e ardentemente fundida a Res – não vemos pois isto exige assumir e sentir o ardor.

O assombro do desenho de Res reside, também, na formação desse ardor; na garantia dele ter sido feito sem tantas palavras correndo para tapar buracos, mas, que, por estarem paradas e concentradas em seu lugar, deixam os buracos, também em seu lugar, e sangrando aqueles que assim o estiverem – nada, então, se move – e, com a porta de saída aberta – mas não arrombada por ninguém, pois cada coisa está em seu lugar – pode-se gerar movimento num papel, que se diz fixado numa parede. Nesta equação, o que está em infernal descontrole diz-se absoluta e corajosamente controlado e, por isso, vaza – sabe que correr para outro lugar que não fosse o seu seria o mais odioso dos subterfúgios; – o que está fixo diz-se em soberano e doloroso movimento – por ser – por aceitar, através do desenho, se comunicar não com as palavras paradas em seus lugares (isso seria perguntar e esperar resposta; mas aqui, verdadeiras súplicas não admitem resposta) – mas com sua noite – seu não-saber – com seus próprios lugares, que, intactos a qualquer tentativa de significado atribuído a elas, recusam-se a ser tidos como apoios a qualquer coisa – e por isso são, por definição, incomunicáveis e inapreensíveis­.

 

 

Tags:

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Recentes

October 24, 2018

October 22, 2018

October 16, 2018

October 16, 2018

October 16, 2018

Please reload

Arquivo
Please reload

Procurar por tags
Please reload

Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square

Atelier do Centro - G1

Rua Epitácio Pessoa, 91, República, São Paulo

3129-3977 // 99537-5396 (RES)

Segunda à sexta: 8h às 17h

atelierdocentro@gmail.com

Galpão do Centro - G2

Rua Teodoro Baima, 39, República, São Paulo

CECAC - Centro de Estudos Conglomerado

Atelier do Centro - G4

Rua Teodoro Baima, 51, SL 1, República, São Paulo

Atelier do Centro - G5

Rua Teodoro Baima, 88, República, São Paulo

Coleção Àlex Muñoz - G6

Carrer del Segle, 5, Premià de Mar

08330 - Barcelona, España

OPCAC - Oficina Prática Conglomerado Atelier do Centro

Rua Teodoro Baima, 39, República, São Paulo

www.opcac.xyz

Vernacular - Editora Atelier do Centro

www.ccsvernacular.com

www.medium.com/@carolccs

  • YouTube
  • Instagram