Relato de Anna Israel sobre o Acontecimento aula de segunda de Res de 12 de março de 2018
ou Observações sobre o abalo

March 13, 2018

 

Escrever sobre a aula de ontem, sobre o que aconteceu, nem que seja articular o que resta da aula que se passa agora em mim, do pós aula, a aula ainda se fazendo presente. Quem sabe um início de relato da aula seja partindo dos resíduos da obra-aula em meu corpo, já que a aula de Rubens é um agente de movimento do outro, por mais escondido que se encontre esse outro, RES desperta o outro da aula (uma sombra) e alguma coisa outra em mim que me deixa em abalo.

Há um desconforto nas tentativas fracassadas em encontrar um significado preciso para esse estado ou mesmo uma resposta para tamanho desconcertamento, (desconcertamento, algo foi quebrado, fui destituída de algo concertado em mim, uma certeza foi devastada). Há uma vontade em tentar articular o porquê do meu abalo, o que eu ouvi sendo dito, qual frase foi dita , qual agressão foi feita, qual possibilidade me foi tirada; me pergunto profundamente, o abalo é uma resposta ao quê? O que exatamente foi abalado? Como foi abalado? Todas essas hipóteses, ou modos de pensar a questão me parecem não fazerem mais sentido, esse método de investigação não mais é eficiente para esse espaço de acontecimento.


A questão é que muito pelo contrário, pressinto esse estado de abalo como justamente um pequeno estado do que sobra de um corpo que ainda acha que as coisas são possíveis. O estado de abalo como como a ressaca de um corpo violado, e por mais doloroso que seja, quem sabe seja o único modo que tenho hoje para entender a aula de ontem, entendê-la de forma completamente nova, o único modo de desentendê-la, quem sabe a aula invisível que na verdade aconteceu foi justamente na tessitura desse abalo. O abalo não é a consequência de um significado terrível compreendido por mim da aula, mas é a própria aula em estado de causalidade em mim, é a própria aula reorganizando minhas placas tectônicas.



Sinto como se as possibilidades me tivessem sido tiradas, apesar de não ser a falta delas o agente desse abalo, pelo contrário, o agente do abalo está mais próximo do que sobra na própria constituição da falta, do outro nome para essa coisa que eu por ora só entendo como falta, ou então, como impossibilidade.

 

Um grande pintor não dispõe do talento de pintor para se fazer pintura, um escritor não dispõe do talento de escrever para entrar na escrita, um mestre não dispõe do talento da oratória para penetrar o outro, todos esses grandes homens que construíram uma obra, dispuseram de algo impossível[1] para esquentar a matéria da pintura, da escrita ou da transmissibilidade. Há algo muito mais sedutor e muito mais terrível nas profundezas das águas escuras do possível – o perigo do possível é que sem percebermos ele se torna tirânico, se torna autoritário, se torna a lei, a ordem, a regra, o cotidiano, o comezinho, o mapa, o script, a mãe , o pai, a avó, o possível é o que nos coloca no caminho; mas o grande artista se inventa no seu próprio descaminho.

“Começar tudo do zero”, não por um charme, não enquanto ornamento, mas algo novo que me surge é que estamos o tempo todo no nosso zero, estamos o tempo todo no deserto árido da existência, impossibilitados de dizer, impossibilitados de fazer – e se não fosse essa impossibilidade, estaríamos asfixiados de verdade, talvez enfrentar essa impossibilidade seja a única chance de poesia que temos nessa vida, seja a única chance que temos de romper a cerca de um autoritarismo profundo encrustado em nossa carne de séculos que carregamos, em busca do perfeito. Não há entidade mais autoritária que a perfeição.

 


De volta ao abalo, a essa coisa que foi dita nos intervalos e junções de cada palavra articulada por RES – lá não havia um talento em oratória ou um virtuosismo em pedagogia. Lá havia a fissura mesmo sendo proferida através de cada anteparo usado pelas palavras para cercá-la. Creio que seja disso que Heidegger se refere em A Origem da Obra de Arte: a obra de arte não são os conjuntos de objetos feitos por um sujeito, a obra é essa massa invisível que passa através deles, é o que os aquece, é essa comoção que nos penetra e que faz emergir uma coisa nova, aterrorizante. Rubens não tece palavras ou objetos ou desenhos como seu “corpo de obra”, mas tece o próprio inaudível.

Posso agora entender um pouco mais materialmente o que Agnes Martin disse sobre a obra precisar do outro para de fato existir. A obra na verdade é essa relação de atrito que, de tanto friccionar, gera calor, e ao ser abalado por esse calor, a obra está de fato se proclamando enquanto uma entidade, a obra está estimulando a doença. Esse é o poder de uma grande obra: ela é amoral, penetra até os ínfimos poros, queira percebamos ou não, ela te pega desprevenido, vai te penetrar em qualquer posição que estiver a mão, e quando menos perceber, estará sendo estuprado por ela. A grande obra não depende da disposição do sujeito para ser vista, já que é ela quem o vê, é ela inclusive quem inventa um possível aparelho de visão outro do sujeito para vê-la.

É mesmo um alto nível de comunicação...

 



Não há como RES apresentar a cada um sua própria fissura, pois isso seria autoritário, e a fissura, muito pelo contrário, é o descaminho, o tropeço, é o que sobra de um autoritarismo. Concluo então com a obra de RES, que o papel da grande obra de arte, daquela que nos parece perdida há muito tempo em nossa civilização, é a de gerar calor, gerar fissura, é a de gerar doença.

 

 

 

[1] Heidegger chamava isso de um outro diferente.

“(...) a obra de arte, além do caráter de coisa, é ainda algo de outro. Este algo

de outro que está nela constitui o artístico. A obra de arte é, de certo, uma coisa

fabricada, mas ela diz ainda algo de outro diferente do que a mera coisa

propriamente é, άλλο αγορεύει [άλλο=outro, αγορεύει=diz].”

Heidegger, A origem da obra de arte, Edições 70

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