Desenhos descontrolados?

March 13, 2018


Há uma ironia do título da série ser desenhos descontrolados – percebo esses desenhos como algo extremamente mental.

Acredito que se requer um nível muito alto de maturidade para entrar nisso que chamamos de “descontrole” sem que se torne uma mera “brincadeira”, um caos. Inclusive, acho que há uma diferença muito grande entre “virar brincadeira” e entrar em um jogo. Acho que, como a Viotti falou brilhantemente, o corpo de obra de RES possui agora seus próprios anticorpos, seu corpo de obra foi autorizado a entrar no jogo, seu corpo de obra possui anticorpos para se curar, para curar uma configuração como essa que dentro de outro corpo, poderia ser “mera brincadeira”. A cura da carne, por exemplo, é um modo que através do uso do sal transforma completamente sua textura e sabor – já o corpo da obra de RES transforma a textura e o sabor do que poderia ser uma "simples ação"; cura a ação de ser reduzida a algo supostamente descontrolado. O corpo da obra de RES cerca e conduz o suposto "descontrole". Ou então como um sistema dinâmico irregular: o desenho é como um enorme zoom do movimento de uma fração minúscula do desenho da fumaça do charuto que fuma.

 

É bonito como RES, para se manter vivo e suportar a aridez da solidão de ir em direção a si mesmo, a solidão a não querer ser mais um homem cindido, cria vida nas coisas ainda sem vida para poder suportar a sua vida – deve ser isso o que chama de ficcão. O modo como vive é criando vida, é insuflando as coisas de vida, isto é, é levando as leis de uma ação, qualquer uma que seja, para leis muito próximas àquelas de uma sementinha que um dia se torna uma grande árvore, ou às leis de um enorme vendaval, ou mesmo, às leis de um crepúsculo que por um instante mancha todo o céu de cores diferentes. 

A coisa é que RES não representa o céu colorido, mas cria a possibilidade para que o que cria o céu colorido seja o agente criador de seu trabalho. (Isso é o que eu desejo me aprofundar nesses desenhos – toda a sua obra, ou, todo seu movimento cotidiano, presumo, ser a construção dessa possibilidade). E assim, constantemente cria céus daquele instante muito passageiro entre o fim do dia e o começo da noite, ou então, cria uma tempestade em alto mar, ou simplesmente um barquinho em percurso. Não os representa, mas gera as condições para que eles se apresentem em outro espaço. E assim se sutura, e volta a poder falar, falar com o mar, com o vento, com os pássaros, e comigo, comigo que eu nem sabia que existe, e que muitas vezes se perde facilmente quando se vai, pois assim como o mount Fuji, RES também me apresenta para mim mesma.

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