A morte de Vera

March 12, 2018

Estou farto de resistir

Estou farto de desistir

Estou farto de existir como existo

De um lugar de mim por detrás daquilo que queria ser

Do encaixe que não encaixa: podridão

Da forma perfeita dentro dos trilhos: verme

Escorrego por entre farpas: entrelinhas

Caio dentro na valeta suja de sangue: meu nome de despe da pele

Exangue, balbucio seu nome em vão: Patrícia, Bia, Bianca, Maria, Teresa, Joana, zefa, Valquíria

Ninguém me atende: o telefone público toca

Não há ninguém aqui: nem poderia existir outro de mim disponível para eu desperdiçar está vida, não posso me dar ao luxo de fracassar, não tenho outro de mim, outro de mim não há, cabisbaixo acato a ordem do meu superior, caminho por entre as docas, com as mãos na algibeira, roçando as chaves pequenas do meu quarto numa estalagem do Porto. Chego em casa e olho simplesmente pela pequena janela que dá para o mar, tiro as botinas, arranco as meias, sinto o assoalho de tábuas fustigadas pelo tempo, com as duas mãos na cabeça penso na morte de Vera. Vera ocupa meus devaneios, ela servia sempre meu café na cantina mais próxima, estava sempre com seu avental vermelho e cabelos presos num coque na nuca. Vera a garçonete de estivadores. Me deito ainda de roupa, no meu quartinho no sótão de uma estalagem, tem espaço para uma cama, muito sem nenhum luxo, deito, cruzo as pernas, penso: — me anima animal, me anima vida, me anima sortilégio, me anima anima, me anima volição, me anima... medito, choro em silêncio, limpo as lágrimas com as costas da mão esquerda, é Salgado o gosto da minha dor, um salgado misturado ao meu próprio sangue, tenho o meu gosto, meu gosto me dá calafrio, meu próprio gosto verdadeiro não dá pé na piscina, o que sou realmente tem gosto de carne própria, minha própria carne tem o gosto do que eu não posso experimentar, o que não posso experimentar me empurra adiante, numa manobra estarrecedora de me posicionar diante da vida — uma ambulância passa gritando, Vera passou por mim todos esses anos gritando de dor e eu tomei meu café e saí com as mãos na algibeira, não que eu não sentisse a sua dor, mas não sabia o que fazer, não insisti o suficiente com Vera, até ela não mais estar disponível para a morte. Hoje sei que eu deveria desferir o golpe em Vera, fazê-la sangrar e tomar meu café e não sair, obrigá-la a ter um corte profundo para se recuperar. Dentro de minhas algibeiras não posso viver.

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