Ser afetado

March 7, 2018

Fossem meus os tecidos bordados dos céus,

Ornamentados com luz dourada e prateada,

Os azuis e negros e pálidos tecidos

Da noite, da luz e da meia-luz,

Os estenderia sob os teus pés.

Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.

Eu estendi meus sonhos sob os teus pés

Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.

W. B. Yeats, Aedh deseja os tecidos dos céus

 

As seguintes frases foram ditas por Rubens nos últimos dias:

Sou um homem afetado pelo mundo;

Vontade de potência é o mesmo que ser afetado pelo mundo[1]

 

Ambas as frases vêm sendo reverberadas em mim desde então. Pela absurda genialidade, ou mesmo pelo encantamento que elas me causam devido à sua extrema identificação com tantas coisas, às quais podem ser chamadas por um nome: mestre.

Segundo o senso comum e o dicionário, temos as seguintes definições:

 

Passivo: Sofrer uma ação, ser afetado por alguma coisa. Contrário a ativo.

Afeto: Estado de quem sofre uma ação.[…] a ação e a afecção não cessam de ser sempre uma mesma coisa que tem esses dois nomes por causa dos dois sujeitos diversos aos quais se pode referir[2].

 

À primeira vista, podemos concluir que ter afeto, ou ser afetado por algo é uma ação passiva.

Descartes, em 1649, não fugindo das  clássicas definições, em As paixões da Alma, diz:

 

[…] a ação e a afecção não cessam de ser sempre uma mesma coisa que tem esses dois nomes por causa dos dois sujeitos diversos aos quais se pode referir [2]

 

 

 

 

Supondo que o sujeito 1, ao ser atingido por alguma ação, afete-se por ela e com isso, provoque o sujeito 2 (tendo em vista que o sujeito 2 pode ser qualquer, inclusive o sujeito 1, diferindo apenas seus momentos no tempo-espaço). A definição de afeto diz que este é estado de quem é provocado por uma ação. A partir daí, pode-se concluir que, de fato, afecção é igual à ação, pois o sujeito 2 foi afetado pela afecção do sujeito 1, e, de acordo com a definição, ele só pode ser afetado por uma ação. Além disso, se o sujeito 2, ao produzir algo relacionado à sua afecção produz algo de fato, então ele não está de acordo com a definição de passivo: pois, além de ter sofrido uma ação, ele fez outra.

Acredito que há diversas dificuldades nesta ação. A primeira delas consiste no que é ser realmente afetado, e não sê-lo apenas superficialmente. Parece-me que é difícil alcançar esse estado por completo pois apenas deixamos a nossa superfície ser afetada – aqui está implícito outra dificuldade a ser superada: a distância entre superfície e o que quer que esteja tanto em seu interior quanto em seu exterior. A tarefa a ser feita parece ser, antes de produzir, a de saber ter afetada aquela nossa parte muda para nós, a que fala a linguagem das flores. Uma produção a partir do que não é afetado parece ser uma reprodução de uma água parada – que não fala senão a sua própria linguagem, sendo, portanto, eternamente voltada para si própria.

Quando Rubens produz um desenho ou um texto, ele não produz com a sua superfície do modo como entende-se superfície; mas sua superfície está impregnada não só de seu interior como de seu exterior – Rubens parece misturar toda sua água com a areia externa, para assim formar o cimento que o embasa e fugir de um lodaçal individualista.

Desse modo, sua produção é, como vimos através das definições, a tecnologia gerada para que Rubens não seja passivo com relação a seus afetos pelas ações por ele sofridas; pois se ele apenas as sofresse, então os dicionários teriam toda a razão em suas definições e assim seriam a obra mais genial existente – e não obras de arte, como a obra de Rubens – algo que, por reverter a tendência natural das coisas, é realmente humana – e talvez por isso recebe o nome de arte – como Descartes disse sobre afecção e ação, são dois nomes para a mesma coisa devido aos diferentes sujeitos a quem ela pode se referir.

 

Parte II

 

A partir do século XVIII, o termo afecção começou a ser entendido como paixão. Este termo tem relação tanto com passividade quanto com passionalidade, mas não se restringe a isso.

Quando se diz crime passional ou uma postura passional há de se ter em vista que este tipo de paixão é ação de controle e de direção exercida por uma emoção determinada sobre a inteira personalidade de um indivíduo.

Acredito que não é esse estado que deve-se ter em mente a partir do estado de ser afetado, o que, pela aproximação dos conceitos, pode gerar o estado de estar apaixonado. Mas sim o que diz a definição de Hegel, na época do início do Romantismo alemão, sobre a paixão:

 

A paixão contém na sua determinação que ela está confinada a uma particularidade da determinação do querer, na qual a inteira subjetividade do indivíduo se imerge, qualquer que seja o conteúdo desta determinação. Mas por causa deste caráter formal a paixão não é nem boa nem má: a sua forma só exprime que um sujeito pôs em um único conteúdo todo o interesse vivo do seu espírito, do seu engenho, caráter e gozo. Nada de grande foi realizado, nem pode ser realizado, sem paixão[3].

 

Eu não sei dizer, como Hegel, o que seria minha paixão, e sinto que após essas páginas, ou quaisquer páginas, ela está sendo apenas cutucada com um pedaço de madeira, sem, porém, levantar-se de seu repouso; não me inteirei nela, ainda não a vi fora de um diário íntimo; não a vi senão como uma blusa que só cabe em mim – talvez sua forma não seja como o da blusa mas seu destino sim – o de envolver – porém como a noite o faz – abraçando e dissolvendo quem nele ousa tocar.

 

 

[1] A conexão das forças é determinada em cada caso à medida que uma força é afetada por outras forças, inferiores ou superiores. Daí se segue que a vontade de potência se manifesta como um poder de ser afetado. (Deleuze, Nietzsche e a filosofia, p. 70) A própria força se define pelo seu poder de afetar outras forças (com as quais está em conexão), e de ser afetada por outras forças. (Deleuze, F, p. 78) François Zourabichvili em Deleuze: Uma filosofia do acontecimento

 

[2] Abbagnano, Dicionário de Filosofia, verbete Afecção.

[3] Hegel, Enciclopédia das ciências filosóficas, §474

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