Por que escrever sobre poemas de Rubens Espírito Santo?

March 7, 2018

Quando leio um texto de Res, sou invadida por uma força devoradora que me arrasta numa série metamorfoseante e deixa o tempo no qual me insiro imediatamente árido. Simultaneamente a esse dinamismo inebriante, fico imobilizada numa realidade paralela que não avança, pois se encontra entravada pela minha realidade – tornando-se esta, portanto, obstáculo.

 

Sem jogar fora você do discurso não tem discurso, o discurso é um corte, uma afronta, uma despedida, o que quero dizer não importa nunca no discurso, eu me importo pouco no que quero dizer, perder o fio da mesa, jogar fora, cortar, estripar, decepar, arrancar, decapitar, afronta afronta, perdi a coisa na ânsia de descrevê-la, ela não quer ser descrita, quer apenas ser, acontecer como um orvalho, uma protuberância qualquer. De saia abaixo do joelho, morava numa edícula, cabelo em coque, não tinha um cashmere verde que eu gostaria de enfeitar este texto. A Argentina é minha avó sem enfeite.

Rubens Espírito Santo, Impressões da Argentina, 2017

 

Para quem escreve, o momento presente é um corte simultâneo nos momentos mais diferentes vividos pelo autor Res, porém, parece cortar os momentos não só de sua vida mas também da vida do leitor, transformando a vida de seus textos na vida daquele que os lê – e eu, leitora, passo a estar num outro papel, que já não sei denominar – talvez o de neta de uma história que anseia ser vista por mim sem enfeites – e que só assim me deixará ver algum lugar desconhecido, metaforizado por Argentina, quem sabe. Ao ler uma passagem destas, passo a segurar, por um instante, minha própria vida em minhas mãos que, num estado vulnerável, se parece totalmente distante de mim, como se fosse uma guardiã de um crime secreto cujo criminoso sei apenas a aparência do disfarce: o meu próprio.

No texto seguinte, aquilo que era reconhecido por mim como minha vida se esvai por trás das montanhas de solidão que as palavras de Res erigem; montanhas essas sem interior – sendo, portanto, impenetráveis. E então, volto a estar completamente acompanhada de um texto que, para que eu possa lê-lo, exige que eu esteja completamente só. Sua linguagem precisa me tocar para logo depois se separar de mim num movimento irrevogável – para que eu saiba o que é um toque e, sem mais confusões, saiba distingui-lo de sua inevitável ausência.

 

[...] o que realmente sei de mim? Não houve um plano? Acabado? Como sobrevivi a mim? Ao impacto de ser eu? Como pode alguém ser sem se destruir? Ser é muito impactante. Ser-se a si mesmo é ficcional. Não existe a si mesmo, não existe si - eu sou na medida em que me choco com o que não sou eu, com o que não quero de mim, com o outro de mim, levei uma facada de mim e me socorri de mim mesmo, me esgueirando pelos becos lamacentos como diria José Régio, num bom português, no vernáculo, no português castiço, estou ainda nos becos lamacentos me esgueirando agora do que não sei de mim, levando facadas incisivas, concomitantemente, arredio de meus ossos me fraturo, insaciável abro um poço em cada poro, cansado repouso na avesso de uma colher amassada deixada sobre a mesa, a poesia toma conta deste texto, ele perde o controle, agora é um bonde chamado seu próprio desejo, corre pelo sangue de um outro canal, entrei no canal errado, a cortina azul abre e fecha sozinha com o vento, ela esqueceu a porta aberta e adormeceu, não sou eu quem está escrevendo, quem é então? Ou sou apenas um eu que ficou trancado de mim para mim mesmo, aberto ele se pronuncia em azul, da cor que quiser, veste Prada, usa calça cor de água, veste meias feitas de rosa, seus lábios se contorcem até virar ao avesso e pronuncia-se numa língua: mais leve que o ar, e mais quente que o fogo, queima, evapora, língua do riozão, língua impávida, língua em estado de sono — um túnel cortou as ruas, o homem de cabeça raspada, a mulher, a seca, o abismo, na palma da mão a noz, olho, carteira preta, sapato arrumado na estante, da sala, os livros etiquetados, o motor do carro está ligado, as malas prontas, sigo sem saber - se não sou um projeto de mim nem do outro, o que sou? Como me fiz? Assustado, interrompido, acossado, túnel do tempo, uma abóbora — não dá pé!

Rubens Espírito Santo, Cu virado pra lua,

11 de outubro de 2017

 

Sem perceber, vejo-me caminhando – com a obstinação de um inseto sem pernas e moribundo que insiste em viver – que ficaram presas nas vírgulas que há nos textos de Res, dificultando meu caminho. Elas são apenas alguns dos elementos presentes nos textos de Res que operam como profundas ameaças para que eu duvide tanto do céu que me afigura quanto dos moldes que fizeram minha própria existência aparecer sobre tal céu. Simultaneamente a esta ameaça, o texto também me adverte que, para lê-lo, devo ter qualquer descrença suspensa, entregando-me então a um movimento de fé poética temporária. Acreditando e duvidando, durante alguns instantes, enquanto leio um texto de Res, pauto-me fielmente a essa absurda ambiguidade, e sou levada a acreditar – pois já não tenho mais escolha – que atitudes aparentemente opostas não são contraditórias.

 

Como pode alguém ser sem se destruir?

 

Nessa frase, o verbo ser tem papel de verbo intransitivo, ou seja, ele não precisa de preposição nem de objeto depois dele. Quando este verbo está neste papel, ele tem três possibilidades:

  1. acontecimento

  2. existência

  3. indicação do momento do dia ou ano.

No contexto, a possibilidade mais satisfatória é a de existência. Ou seja, a frase ficaria:

Como pode alguém existir sem se destruir?

Esta frase indica uma absoluta contradição; Res afirma que existir só é possível ao destruir-se, ação diametralmente oposta e que posso – de alguma forma que não faço ideia, pois a esta altura estou sem pernas – pôr os pés nas duas extremidades destas terras sem quebrá-las – mas sim aprender a andar nelas de um novo modo.

Deste modo, dadas as seguintes ambiguidades encontradas:

 

  1. Torrente metamorfoseante / realidade paralela que não avança ao se chocar com minha realidade;

  2. Proximidade da minha vida / Distância da minha vida;

  3. Estar acompanhada / estar sozinha;

  4. Acreditar / duvidar;

  5. Movimentar-se sem instrumentos.

 

Estas ambiguidades são elementos não só reconhecidamente presentes nos textos de Res mas fundantes deles. Elas afirmam que a leitura de um texto de Rubens parte de um movimento impossível, pois todas as suas regiões são fronteiriças: seria possível fazê-lo se eu estivesse também em minhas fronteiras. Isto faz com que eu aprenda a ler o vazio do texto, o decalque de suas letras, e me transforme um pouco também em autora, não dele, mas do que ele me permite ler dele, já que suas palavras vedaram as saídas. O texto em si não existe: ele é formado apenas de linhas – sendo limite dele mesmo. Assim, ao delimitar uma área, ele me adverte ao mesmo tempo que convida: Se conseguir, corra o quanto puder aqui dentro

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Recentes

October 24, 2018

October 22, 2018

October 16, 2018

October 16, 2018

October 16, 2018

Please reload

Arquivo
Please reload

Procurar por tags
Please reload

Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square

Atelier do Centro - G1

Rua Epitácio Pessoa, 91, República, São Paulo

3129-3977 // 99537-5396 (RES)

Segunda à sexta: 8h às 17h

atelierdocentro@gmail.com

Galpão do Centro - G2

Rua Teodoro Baima, 39, República, São Paulo

Residência Atelier Luca Parise - G3

Rua Teodoro Baima, 51, SL 2, República, São Paulo 

www.lucaparise.co

CECAC - Centro de Estudos Conglomerado

Atelier do Centro - G4

Rua Teodoro Baima, 51, SL 1, República, São Paulo

Atelier do Centro - G5

Rua Teodoro Baima, 88, República, São Paulo

Coleção Àlex Muñoz - G6

Carrer del Segle, 5, Premià de Mar

08330 - Barcelona, España

OPCAC - Oficina Prática Conglomerado Atelier do Centro

Rua Teodoro Baima, 39, República, São Paulo

www.opcac.xyz

Vernacular - Editora Atelier do Centro

www.ccsvernacular.com

www.medium.com/@carolccs

  • YouTube
  • Instagram