O buraco

February 27, 2018

 

Rubens Espírito Santo e Madame Bovary

 

 

Madame Bovary é um livro escrito por Gustave Flaubert em 1856. Resumidamente, sua história trata-se da vida de uma moça que se casa com um homem, frustra-se com este casamento e, entediada, entrega-se a relacionamentos extraconjugais e compras alucinadas de roupas e objetos domésticos. Adentrando a extremidade de uma esfera de desespero e solidão pelo fato de não poder levar nenhuma de suas fantasias adiante nem conseguir pagar suas dívidas, Madame Bovary comete suicídio.

Dada a complexidade dessa história, o que eu gostaria aqui não é de fazer qualquer análise ou julgamentos éticos ou morais sobre ela, mas expor como ela me ajudou a pensar algo sobre o qual vem sendo falado: estar no buraco.

Aparentemente, pode-se dizer que Emma Bovary entrou num buraco, pois estava sem saída para todos seus problemas: não tinha dinheiro para pagar suas dívidas, não podia fugir com nenhum de seus amantes – em dado momento muitos desinteressam-se por ela; não tinha o casamento que queria – aquele sobre o qual ela lia em diversos romances – e não sabia como sair dele. O único modo que ela vê de sair disso tudo é fugindo de todos os problemas – saindo de sua própria vida com um vidro de arsênico.

Aparentemente também, pode-se dizer que Emma Bovary inventou, através de sua imaginação e personalidade fortes, diversas situações para que ela conseguisse ter fôlego para poder enfrentar uma vida sem graça, e assim ela estaria, então, ficcionando sua própria vida, tornando-a mais rica e excitante, dado que ela tinha havia criado certa liberdade para inventar aquilo que quisesse ser: um dia, uma esposa comportada e culta que, além de se dedicar à casa, lia e tocava piano; no outro dia, uma transgressora voluptuosa na cama de um galanteador que caçava animais.

Porém, suspeito fortemente que o suposto buraco em que Emma Bovary encontra tenha a ver com o buraco de Rubens. Acredito que neste último, a liberdade de criação é absoluta e reinante pois, através dela, pode-se criar justamente possibilidades de se relacionar com aquilo cujas possibilidades dadas são vetadas, quando não nulas; a estas possibilidades damos os nomes desenho, texto, objeto, entre outros; enquanto que, aquilo que Emma Bovary cria, dá-se pelo contrário – a impossibilita de se relacionar com aquilo que ela já tinha – dez amantes não faziam com que ela se relacionasse melhor com seu marido ou com sua solidão, por exemplo. As pessoas que Emma Bovary cria para ela parecem ser na verdade fantasmas que ela expulsa de sua imaginação para que possam assombrá-la na vida real – sendo eles apenas respostas a demandas externas, não devolvem perguntas a tais demandas – essas respostas geram outras, tanto da sociedade quanto dela própria – e tornam-se um fardo difícil de carregar – mas que ela carrega até não poder mais.

Acredito que o buraco de Rubens não cria respostas mas perguntas – talvez são elas aquilo com que ele começa a cavar a terra, até que elas, ao se alimentarem umas das outras, façam com que bem poucas ali permaneçam – poucas o suficiente para manter habitável o restrito lugar.

Há também uma confusão que o buraco de Emma Bovary pode causar: suas atitudes rebeldes podem ser encaradas com uma certa não conformidade às coisas dadas, uma inquietação, uma não concordância com aquilo que, talvez, algum destino iria querer dela – e ela se põe então num lugar de ser aquela capaz decidir sobre sua vida, de quem diz o que e como será seu destino.

Já o buraco de Rubens afirma que ali, só se entra quando não se tenta mais ter intermediários ou subterfúgios que intervenham entre ele e sua existência – com esse limite claramente imposto, podemos vislumbrar que Rubens não pode parar de produzir – diferente de Emma Bovary, Rubens não tem esperança alguma de que o buraco seja menor – sua constante pesquisa mostra os passos com que anda esta conversa entre Rubens e existência – e que um está submetido ao outro – e Rubens se submete, sem ter o que dizer e de bolsos vazios ao método de uma vida que não tem regras para se burlar e que pede para ele o impossível: a passos lentos, andar dentro de um buraco; Rubens não tem nada a dizer – diante disso, pode produzir maneiras para que a existência diga para ele o que ela quiser:

 

[...] o que tenho a dizer?  Que valha a pena ser lido?  O que sou?  A que venho?  O que estou fazendo de mim?  O que há de mim em mim que não percebo?  E de eu em mim?  E de ele nisto tudo?  Ele, ela, a palavra que me dirá, a palavra que sou eu, que me escreve, me assina, me atribui a quem sou. A cada frase aprofundo o abismo entre eu e o que tenho para dizer, a cada movimento neste texto o texto se oculta mais e mais, mais e mais e mais — tenho consciência absoluta que estou me afastando de mim, isto é ótimo na verdade, pois já que não sou mesmo, afastar-se não é de todo ruim. Assim solto, fio solto, desencapado, choque, que merda não ter o que dizer. Tem moscas voando em cima da minha sopa. Tem fio de cabelo no meu prato, tem aranhas tecendo os meus olhos, um fio mínimo que seja de esperança para mim, ainda que seja ínfimo, me assegurarei nele, ele se rompe e me grita nos tímpanos que não posso ter esperança alguma se quero escrever, escrever é para quem não tem esperança, escrever é para quem cava um buraco na terra bruta do dizer, com as próprias mãos sangrando, é para quem não sente mais as mãos pegarem fogo embaixo da terra úmida e quente, escrever é assim ato de vandalismo contra a pele que me protege de mim, a pele que me impermeabiliza, rompo minha pele a mordidas, a picadas, a escrita está se fazendo sozinha, ela mesma se instaura, a lama vaza, o que tem que ser rompido será. Poço aberto de mim. Tenho que abrir passagem ainda que seja feio passar, preciso passar, trafegar. Andar é feio, prosseguir é agressivo, deixar para trás é pecado, caralho que é pecado, pecado é não seguir em frente com os bolsos vazios.

 

Rubens Espírito Santo, Omar em Dez Textos sobre a Deontologia da Língua Portuguesa, 2018

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