PEDAGOGIA

Algumas reflexões sobre

pedagogia na plataforma de aprendizagem

técnico virtual RES / fevereiro 2019

Por Anna Israel

 

Gostaria de frisar que aqui apresento questões depois de 9 anos no Atelier do Centro, tanto enquanto discípula, assim como parceira na construção do Méthodo

 

 

 

  1. Começar já com esse item: o discípulo é um parceiro na construção do méthodo e na construção do mestre. Aqui já rompemos com uma ideia centralizadora de poder, onde o professor é o agente ativo e o aluno passivo - rompimento da ideia de um palco ou pedestal para aquele que ensina, e o outro lado para aqueles que escutam. No Atelier, todos “sentam na mesma mesa”. Já posso a partir disso também criar muitos sub-itens: escuta / agente / poder / rompimento - são todos esses conceitos desenvolvidos diariamente na prática no methodo (ou melhor, não há dizer “na prática no methodo”, pois o methodo em si é a própria prática de algo). Voltando ao foco desse item: não existe professor sem aluno - isto é, o aluno ensina o professor sobre o que ele mesmo é, o aluno no methodo é fundamental, pois o methodo não é um sistema de regras fechado, enrijecido, cristalizado, muito pelo contrário, o methodo é uma tecnologia em constante transformação, uma tecnologia quântica, que se auto corrige, que pode seguir um caminho completamente imprevisível (ou aparentemente imprevisível). O methodo em si se aprende com o sujeito, seja professor, seja aluno, o methodo é o organismo vivo que ensina ambos a lidarem com ele, é um fio de Ariadne de retorno de nós mesmos. 

  2. Preocupação com hierarquia, ou fim dessa ideia ingênua de “horizontalidade”. Sem uma voz de comando não há trabalho sério - precisamos entender isso não de forma despótica, mas como um próprio mecanismo de funcionamento do nosso organismo fisiológico e mesmo psíquico. Uma voz de comando é extremamente necessária. Sempre há uma voz de comando, sempre há hierarquia, então não vamos fingir que não há. Resolvendo essa questão, as coisas ficam mais claras, mãos transparentes, sem segredo e sem entrelinhas. Somos um país que tem muito medo ou vergonha de falar de coisas óbvias, falar das coisas que são constrangedoras e por isso vivemos em uma constante fantasia. 

  3. É importante também delimitar os níveis em que cada um está, para também gerar competição, e a competição aqui não é mesquinha, mas é uma estratégia para se gerar ambição.

  4. O methodo possui diversas camadas - ele serve tanto para o mestre quanto para um jovem de 15 anos, ele se molda em relação ao sujeito, ele entende as demandas reais do sujeito, ele é orgânico , anti-despótico, anti-autoritário. O sujeito é quem vai vai apresentar ao “methodo” o modo como o methodo lidará com ele. Sistema dinâmico irregular. Infinitas variantes. Não há um caminho certo, mas isso não significa que há desvairia - um não é o oposto de outro - no meio do caminho entre a norma e a loucura há o methodo. 

  5. Há sim um caminho espiritual . E há sim a possibilidade de se atravessar o fantasma, diria ainda que atravessar o fantasma seria inventar uma nova cultura de si mesmo, seria entrar finalmente na sintaxe do fantasma, seria ser imbuído da potência do fantasma. Há um caminho para isso. Podemos sim ser melhores do que somos, podemos sim fazer passagens, lavar a roupa suja de décadas e décadas de antepassados impregnadas a nossa pele. 

  6. O methodo não é imediatista - é estratégico, tem fôlego

  7. Escuta: muito importante. Há varios níveis e tipos de escuta (para citar as mais primárias e mesmo assim esquecidas nos dias atuais):

  8. Escuta do outro: sendo ele aquele que se apresenta para fora de você, e não o outro que pensamos ser o outro, não a nossa ideia do outro.

  9. Escuta do corpo: ser capaz de conhecer minimamente seu corpo, entender quando algo funciona e quando algo não funciona. Ouvir quando o corpo está sendo prejudicado, ouvir quando o corpo está pedindo socorro, ouvir quando o corpo precisa parar, quando o corpo precisa de recursos

  10. Escuta do sintoma: ser capaz de minimamente ouvir quando uma ação é minha ou é da minha mãe, quando é do meu pai, do meu país, da minha insuficiência - ser capaz de escutar as diferentes línguas que falam dentro de mim para eleger a língua que quero falar

  11. Escuta das demandas externas e escuta das demandas internas — saber diferenciar uma da outra

  12. Escuta do que o outro está realmente pedindo ou dizendo — o outro diz algo mas o dizer é ainda somente o display para outra coisa que está querendo ser dita. Em pedagogia, esse tipo de escuta é extremamente importante - mas só somos capazes de escutar o que o outro está mesmo pedindo se formos capazes de escutar ou eleger o que nós mesmos estamos pedindo de nós 

  13. Claramente há algo insustentável nos tempos atuais - o ser humano não tem mais motivação, o ser humano não motivo para viver - há um problema sério aí - e me parece que para lidar com isso o homem está criando artifícios para ocupar o seu tempo de vida, o homem está ocupando um espaço vazio ao invés de consumando um tempo de vida, ao invés de consumando o próprio vazio consigo mesmo — a pedagogia tem que ser uma arma violenta para atacar esse mal - a pedagogia tem que lidar com questões reais do homem, principalmente do homem que em breve perderá muitos de seus empregos por robôs. O artifício para ocupar o tempo do homem, ou, o “emprego para sobrevivência” chegará a um fim - se não formos muito rigorosos em entender o tempo em que nos espera, ficaremos pra trás de nós mesmos, essas questões que se apresentam hoje só se agravarão no futuro. O próprio futuro está colocando o homem contra a parede e pedindo para que ele resgate o espírito.

  14. Ser capaz de falar de coisas pessoais, ser capaz de ter distanciamento e falar dos podres - falar do podre é o início para se limpar do podre - assumir o podre, assumir o mal cheiro. Assumir o mal cheiro é colocá-lo para fora e ao colocá-lo para fora um espaço está sendo vago para questões impessoais, para vínculos com o ofício. 

  15. Tríade: o pre-gato — o gato — pós gato // realmente adentrar o estágio do gato e suportar esse lugar por anos já é estar em um nível muito alto - investir em destrinchar melhor o que é o gato. O gato é o “drible na pequena área”, como disse res - sendo a pequena área, toda a nossa condição em relação ao nosso país, nossa herança genética, nossos traumas, driblar essas questões que sobraram para nós driblarmos em um espaço de tempo muito pequeno que é uma vida - como driblar essas questões? Como atravessa-las? Qual a estratégia? Atravessá-las para onde? O que sustenta esse atravessamento? Qual o artifício? Qual o bote que usaremos nessa travessia ? Qual o bote que cada um terá que criar? Alguns podem construir um bote, e outros podem construir um navio - mas quais mesmo tem os recursos para não naufragar nas tempestades dessa travessia?

  16. Organização — se algo for vazar, tenha o lugar certo para vazar — dar nome aos bois, não se enganar, ser duro consigo mesmo , ser cruel consigo mesmo 

  17. Capital — criar um próprio capital. Ganhar dinheiro não relacionado a ter um dinheirinho para sobreviver, mas ganhar dinheiro significa uma troca de riquezas. Ganhar dinheiro significa realmente valer algo, significa ter valor, construir um corpo, estar incorporado de uma moeda - fazer um bico não é ganhar dinheiro. Ganhar dinheiro é construir um corpo externo que enfrente o mundo. Ganhar dinheiro é construir um barco que tenha recursos para não naufragar na travessia.

  18. Diferença fundamental entre o methodo e “terapia”: não há uma questão moral no método, ou seja, as questões são tratadas aqui de forma sem moralidade, sem automatismo, e com uma vontade profunda de des-alienação. O que quero dizer é que não se trata de seguir a risca “normas”, e entender que fazer uma coisa não é melhor que fazer outra coisa; mas entender porque uma coisa funciona e outra não, isto é, onde a relação de uma pessoa com a escrita está entrando? Onde a relação de uma pessoa com o álcool pode entrar? As questões do methodo são muito pouco deterministicas e por isso muitas vezes podem soar contraditórias para quem as ler de forma leviana. A questão é que a pedagogia na vida de um sujeito tem que entrar de forma orgânica - tem que haver sentido na vida do sujeito. E cada um é diferente do outro. Uma coisa que funciona para um pode não funcionar para o outro — mas considero de extrema importância esmiuçar as diferenças do methodo para uma “terapia” - assim como a diferença de arte para “arte terapêutica” — não há nada de terapêutico no methodo, muito pelo contrário, acredito que o methodo busca “criar novos traumas para enfrentar traumas antigos” - sendo os novos traumas a obra. O trabalho de arte tem que ser a construção de um novo trauma.

  19. No methodo não há “apaziguamento” das coisas, muito pelo contrário, há guerra - o methodo é uma ferramenta para poder ir para guerra 

  20. Qual a diferença do methodo e do atelier do centro? O methodo é uma ferramenta para se operar dentro do atelier do centro - mas o atelier do centro não é um espaço na rua Epitácio pessoa, na verdade o atelier do centro tem que estar dentro do sujeito, portanto o methodo é uma ferramenta para se operar dentro do sujeito. O atelier é um rasgo, uma fratura, uma fratura fundamental no sujeito. O methodo só serve para aquele que está fraturado, para aquele que está sangrando, para aquele que não tem mais saída.

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