A massagista

 

25 de julho de 2018

 

Traz toalhas molhadas, envoltas em fé, pingando o calor do deserto, toalhas envoltas em peles recém-arrancadas dos bichos — bichos que soltei dentro de mim, num momento de insensatez, bichos que agora não querem mais voltar para o lugar onde estavam, cresceram num lapso muito pequeno de tempo, o lugar de onde eles saíram encolheu, eles não cabem mais no lugar de onde vieram. Bichos agora sem lugar, ou melhor, bichos num novo lugar e novos bichos portanto. Dilatado diante de mim, saio correndo em direção oposta de onde deveria estar indo, meu destino me escapole, meu destino caminha à minha frente, à minha frente... à minha frente, sem recursos de ir, rolo no chão, dou cabeçadas na terra oca, sangro a testa, ouço o trilho. Preciso, preciso muito me encontrar, onde procuro é muito conhecido, preciso desenterrar o precioso de mim, mas de mim só sei o básico, ainda que ache muito de mim, nada sei, e este nada saber é estrondoso, quero cavar mais fundo, mais fundo, perco o fôlego no primeiro golpe de pá na terra dura, seca de minha carne atual, meu corpo é duro como casca de árvore morta. Couro infrutífero. Devo sacrificar algo que não estou achando, mesmo de máscara sou reconhecido na fronteira, não consigo passar, sou detido, revistado, revirado, por mais que me virem, não acham nada de suspeito, porra não sou suspeito, porra - caralho sou insípido, merda, não levo comigo o perigo, onde estará ele, onde ultrapassarei o código que me protege de ser eu. Desconfio de mim, dele, a coisa embrulhada, manchas de sangue; — a maleta, alfândega, controle de passaportes, restrição, sei que há algo errado. Não suspeitam de mim. Eu mesmo não suspeito de mim. Isto é o erro. O que me interessa aqui tem que ser o erro. O que me interessa aqui é, não pode ser outra coisa, senão não tem nada para dizer, assim no vazio, na opacidade do que não quero proferir, do gesto que não sou capaz de executar talvez brote o que tenho a comunicar. No comunicado de mim, um homem sai correndo, um disparo, um automóvel, minha roupa, minhas coisas, minha vida, minha verdade, tudo foi esquecido, um assalto, nada a dizer, vazio absoluto. Homens trabalhando na beira da estrada, hotéis baratos estão fechando, a economia do país se afunda, na beira da estrada ouço muitas línguas estranhas sendo faladas. Porque estamos viajando, não me lembro mais. Não me recordo o que estou fazendo aqui, na esperança absurda de chegar a algum lugar submeto tudo que tenho ao penhor. O senhorio do penhor. O refeitório, onde homens agachados consertam os dutos, as palavras que me aterrorizam pulam em cima da mesa onde tomo o desjejum. Uma loira corta pedaços de carne sobre uma tábua, prepara a carne, o almoço sai tarde deste lado que estou, através da cerca, através da maçaroca de detritos, ainda me levanto, ainda tento, o que não sei, pouco importa o que sei...

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