Maria Esticália

 

Procedimento randômico de texto de Rubens Espírito Santo, 06 de maio de 2018

Qual é mesmo o seu problema?

O que te concerne neste mundo?

O que é seu de tudo isto?

O que te pertence?

Não somente como matéria, mas como pedaço de sentido?

Mas como algo que pega fogo em suas mãos?

Maria esticália! Onde está você?

Onde aconteceu a ruptura? Quando? Sei que erro todas as perguntas sobre você. Não deve ser isto. Nem aquilo, nem aquele outro. O que será então?

Que acontece no bojo, no nascedouro, detrás do feito, arredores de mim, arisco, empecilho, areia, areia dentro do empecilho, nos arredores  colho a coisa desembrulhada, fede, cheiro ruim do que foi esquecido, tento inverter a ordem de mim para ver o outro, o outro está distante demais, soltei muita linha, o sol está a pino e eu com muita linha solta na água, minhas calças estão cheias, minha cabeça oca, minhas mãos inchadas.

Caminho sem destino, sigo em frente como quem vai para trás, atrás — tão atrás, atroz de mim, não falo do outro, não posso, não o vejo, entalado sofro, Caio na armadilha sedenta de sangue de fácil dizer, de aborrecimento, de maldade, imprudência: não era esta palavra, não existe a palavra errada, nem a certa, “a palavra está onde não posso estar de forma alguma”, ela mergulha sem oxigênio por mim, volta à tona e traz a desgraça de me dizer que não posso ser eu sem me afundar, sem me afundar nem superfície posso ser, forjo um jeito de estar no dizer artificialmente vou indo já que não dá mesmo para ir a seco, a seco não se anda aqui, aqui o caminhar é lento: difuso e dízimo, impretérito — arranca-se a casca da ferida, álcool, serpente movendo-se lentamente dentro da espinha, dentro da medula, da coluna, da insistência em estar aqui, vou descobrindo como dizer da serpente à medida em que a serpente me pica, na medida mesmo do veneno, a serpente inviabiliza-me para o que não sou eu, “antígeno”, artilharia-chapéu azul de sol é um ardil, me maltrapilho para estar onde não deveria estar, onde devo estar já que todo lugar não é lugar, não há lugar onde eu possa estar mesmo no lugar, sei que o meu lugar é impróprio. Impróprio como dizer, falar, incógnita-cognição como um coração orando, suplicando-cavo, invocando — invocação de trás pra frente como um pedido freado, invasão do pedido, chacota-aranhada, linha-bramada, beco sem saída, linha torta, a coisa, a coisa todamassada, a coisa em carne e osso que não consigo tocar, fora do alcance das mãos, texto que sobra, quero uma parte “decifra” deste texto, uma parte que sobra, uma espécie de apêndice, um assento para fora, à margem do que está sendo escrito, como um texto que se escreveria enquanto Escrevo este texto outro texto se escreveria-se-a minha revelia num outro lugar deste mesmo texto — assim teríamos um modo outro de escrever o que ainda não temos tecnologia para escrever, achar esse modo de operar, achar este modo de estar dentro de mim, dentro deste texto: uma escada salta para fora da construção, do perímetro do edifício e depois retorna para a construção, a parte que escapa é de vidro, me expõe. Exposto, com fratura exposta, osso quebrado, desalinho-amar-fanhado, corrimão externo do prédio da minha construção, fora do campo topológico, exógeno este pedaço de texto deseja me reinserir na coisa, desconectado da coisa não posso falar, totalmente dentro da coisa sou devorado, labirinto de mim, do outro, da própria coisa em mim, devorado sou um cãozinho manso, lamentando-se pelos corredores desertos deste pavilhão vazio que sou eu sem inserção no “riozão” que sei que vou desaguar um dia: é inevitável, ele me aguarda por mais que eu fuja dele, ele me espreita à distância envolto numa bruma fina e incansável, sem limites de tempo ou esperança, aguarda imóvel, outroramentoso, com ou sem água falo a língua de minha tribo, gaguejo minha própria língua, matriz de um dizer que me avilta, aviltado indignado assim mesmo montado num cavalo que não existe insisto em prosseguir diante do inimigo vultuoso perdido de razão já quase sem idioma para falar caio de quatro e rezo o pai nosso como quem tece sua imensidão num copo de vidro pela primeira vez.

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