CCS

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Texto ccs sobre uma frase de RES

 

Boa noite!

 

Mando texto que não queria sair de casa mas hoje consegui empurrá-lo pelo menos um pouquinho – ou, na verdade, é o contrário – ele quem me empurrou a sair de casa.

Beijos,

 

A reta real

Sobre uma frase do texto "Como escrever?", de RES

CCS, 10 de novembro de 2019

9. (...) Em dizê-lo, sei muito bem que não digo nada, não há como dizê-lo, mesmo, de nenhuma forma.

Mas, por isto mesmo também, vou empenhar minha vida nesta tentativa vã. 

Em ser “VÃO“, estou sendo tudo que POSSO !

RES, Como escrever?, 9 de novembro de 2019

Sobre a última frase deste texto. Perceba que não está escrito “ser em vão”, mas “em ser vão”. Ou seja, o “vão” aqui é o objeto do verboser, que inclusive está numa posição gramatical diferente da frase anterior, quando ele diz “tentativa vã”. Aqui, o “vã” é o adjetivo de “tentativa”: a tentativa é vã porque não chega a um resultado, é inútil querer chegar a um resultado: no começo do texto ele diz “Há um esgotamento tremendo de causa e efeito, isto é: faço isto e obtenho isto, no mundo realmente que importa não é assim, esta lógica não funciona”. Na inércia da leitura da palavra “vã”, podemos ler a frase seguinte como se o “vão” continuasse a ser adjetivo e a frase fosse “em ser inútil, estou sendo tudo que posso!”. Porém, acredito que a própria palavra o levou a um outro sentido, o de “espaço vazio”, “abertura”, – para então dizer que estar nesta abertura é tudo que ele pode – mesmo depois de ter assinalado algo impossível de se fazer.

Sobre a palavra “vão”:

● Adjetivo:

1. Vazio, oco

2. Inútil.

  •  Substantivomasculino:

1. Espaço vazio.
2. Vale entre montanhas.
3. Abertura formada na parede por porta ou janela.

4. Verbo ir conjugado no presente 3a pessoa plural: Eles vão

Sobre o vão

 

Ontem me lembrei de um episódio quando estudava matemática. Era uma aluna do primeiro ano e um dia, atormentada por uma dúvida, perguntei para a professora o porquê de existirem sempre números entre uns e outros. Não conseguia entender o que fazia isso ser sempre verdade, por que a reta de números não tinha furos, não tinha vãos? Como era possível ter uma infinidade de infinitos sendo que eles eram limitados – por exemplo, ter infinitos números entre o 2 e 3? Ela ficou surpresa por eu perguntar algo que parecia tão óbvio mas que de óbvio não tinha nada. O matemático Cantor morreu louco tentando provar coisas dessa ordem. Depois da minha pergunta, a professora me trouxe uma pilha de livros que eu só iria ver no último semestre do último ano. Eu obviamente não entendi nada – percebi que não tinha recursos para receber a resposta da minha própria pergunta. Durante minha curta estadia na matemática, lembro que ansiava por conhecer um orientador como o Rubens – que me mostrasse o perigo de ver outras faces da reta real – mas também que não me deixasse cair fatalmente neste perigo.

 

Lembro também que, quando criança, tentava contar até o último número que eu conhecia. Surpresa, percebia que esse número nunca chegava – mas então se eles não tinham fim, como eu sabia sempre qual era o próximo?

Hoje, passados dez anos do episódio com a professora de matemática, vejo que a pergunta ainda faz sentido e que ela ainda existe: hoje ainda me pergunto a mesma coisa. Lembro que tive este pensamento quando fazia almoço de RES no Eiffel no sábado de manhã: como esta simples experiência pode parecer um vão entre números – como ela pode parecer um mergulho entre elementos apertados, entre lugares que não prometem ter espaço – e mesmo assim, de alguma forma, me mostram, em sua impossibilidade, que é possível abrir lá um espaço. Abrir este pequeno espaço é condição para que eu possa entrar nele – mas não é condição para que eu permaneça nele; continuamente ele se fecha, e continuamente eu devo tentar abri-lo. Por isso não adianta ser apenas um almoço; uma assistência; uma sessão de desenho; um texto. Saber que a existência deste espaço depende de tentar abri-lo me obriga a vislumbrar saídas onde não há – a ter força quando não tenho.

Me parece que este continuum tem a ver com a experiência de ser discípulo e o que a diferencia realmente de outras ditas experiências é que ela é infinita, mesmo sendo limitada por diversos fatores – sendo, inclusive o maior fator de limitação eu própria – portanto, eu não vislumbrei-a por inteira, o que faz com que eu a desconheça – por ser como a reta real de números, ela parece ter em si uma característica que a permite ser desconhecível –parece que, por mais que eu saiba de alguma forma qual é o próximo número, se eu permitir mergulhar em seu vão, vou descobrir algum número menor ainda do que eu imaginei – algo que eu nunca ousara ver – ou com mais casas decimais – esta infinidade pode até parecer uma perdição – mas eu acho que ela é o que faz com que seja possível me aproximar de algo apenas sondando-o, como a definição de limite na matemática permite ver o comportamento de uma função aproximando-se de um ponto dela – assim, o almoço no Eiffel, as assistências, as tarefas semanais incansáveis, a sensação de estar parada no mesmo lugar e ao mesmo tempo estar caindo de para-quedas, as listas, a repetitividade das sessões de desenho – são aproximações deste serzinho imperscrutável numa reta real – que não é nada reta e que por mais que eu não a veja, é mais real do que eu mesma.

Sinto que a força desta reta – deste fio no qual tento me equilibrar, e do qual mais caio do que permaneço – não é a de ver realmente o que está num determinado ponto seu – mas a de sempre me chamar – a de, mesmo sendo muda, ter mais voz do que eu tenho – e ao me chamar, me empresta uma voz para continuar perguntando o que está lá – mesmo que não possa nunca vê-lo. Espero muito estar conseguindo transportar o que sinto com tudo isso – sinto que são realmente preciosas essas noções – porém não tenho tecnologia interna o suficiente para dizê-las – para fazê-las compreensíveis – ou ainda, para transmitir sua intradutibilidade – me sinto pequena em empenhar esta “tentativa vã” – mas já não posso mais não mergulhar nela.


Na verdade, corrigindo: espero muito estar conseguindo me transportar de tudo que apenas sinto para a então instância da reta real – que pode me guiar para onde eu não sei – mesmo que nem eu nem ela tenhamos tecnologia para isto – ela me ensinou que só verei algo se mergulhar neste algo – 

neste abalo –
movimento cujo combustível
é a vergonha de estar sempre
na conhecida engrenagem da mediocridade

da lógica do ressentimento –
do mal entendido entre causa e efeito
que me enroscou –
me enfeitiçou a cair tão fundo em seu poço

que posso acordar em outro
e furar o véu de resquício de céu
que afundou em meus olhos

e me impediu de abri-los
para então não poder saber
e assim – PODER –
o que e onde ainda neles

permanece
apesar da negritude desta noite –

vê algo nela –
que jamais envelhece!

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