A Camareira - Neide

 

24 de julho de 2018, Cambury, Litoral Norte

 

Como posso explicar, como posso falar sobre Neide, se eu acabei de conhecê-la, acabei de trocar com ela duas palavras, posso aguçar meu sangue para ouvi-la, posso ligar minhas antenas subcutâneas para dialogar com suas dores mais profundas, em algum lugar de mim já fui camareiro, em algum lugar de mim já sofri as dores dela. Em algum lugar de mim o inferno de Neide existe, em algum lugar de mim os prazeres mais ocultos de Neide sobrevivem. Quem é Neide? Quem é a Neide que subsiste em meu inconsciente que não tem nada de real com a Neide de carne e osso que atravessou meu caminho. A Neide gordinha e solícita. A Neide que não sei nada dela. A Neide intransponível. A Neide absolutamente secreta. Misteriosa. O que faz a Neide (a Neide que ressoa fundo na minha história pessoal, que rebate e ressoa fundo na minha história familiar, dentro do nome Neide há o nome ENI, minha irmã louca e sensitiva vive na Neide, minha história me atravessa mesmo depois de abandonada, nunca conseguiremos deixar para trás totalmente nossa história, ela nos atravessa de ponta a ponta, nos rasga do começo ao fim, não há o que fazer, ou dialogamos e negociamos com ela ou ela nos esmagará) quando não é camareira? Quando não está sendo camareira? O que há de nós quando não estamos presos a nós? Quando estamos desenlaçados de nós o que somos? Quando estamos desembaraçados do que acreditamos de nós o que podemos ser? Neide? Intransferível ser. Neide compacta. Absoluta. Neide é só Neide. Neide não pode ser só Neide. Paradoxo. Neide de Cambory. Neide da pousada do Rosa. Neide para além de todos estes adjetivos. Neide livre de palavras, Neide incapturável. A Neide é um aviso. Não deixamos nada para trás, não se pode abandonar as coisas simplesmente, elas devem ser passadas a limpo. Não se joga no lixo a família. Não se abandona a família. Não se afasta dela por mais que queiramos. O fantasma da família nos acompanhará até nossos últimos dias. Uma obra é uma maneira de exorcizar a família e os fantasmas. A cada dia creio que arte é um método de cura, uma forma mesmo de exegese espiritual do ser - contrário ao que pensa Jac Leirner numa recente entrevista para jornal de São Paulo, penso mesmo que arte não pode ser somente um exercício plástico. Arte tem que ser algo maior, uma epifania, um daimon. Meu modo de passar meus fantasmas a limpo. Neide no meu caminho é meu caminho no meu caminho. Meu caminho me atravessa, reverbera em mim meu caminho, não posso esquecer meu caminho, ele está gravado ainda no que virá para mim, Neide reverbera meu devir. Há uma comunhão entre eu e Neide secreta que só sabemos juntos num devir silencioso. Há mesmo uma liturgia no cotidiano se ele for reparado.

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