CABANA E ACASO

Ana Mohallem

 

As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente querem nos levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou, e mais indizíveis que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa.

Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta

 

Em uma conversa após um dia intenso de trabalho, falei que Rubens, para poder fazer uma obra como a Cabana, provavelmente tinha um acesso muito íntimo ao acaso. De que acaso eu estava falando? Foi uma semana de trabalho árduo - sentia que tudo que era feito por nós na Cabana era também feito por ela em nosso corpo.

Lonas tensionadas, vigas de sustentação desafiadas por furos enormes, elementos que nunca estiveram próximos agora eram apertados uns contra os outros, obrigados a constituírem juntos uma nova unidade. Tudo isso na Cabana, tudo isso em nossos corpos, no meu corpo.

Mas de que acaso eu estava falando mesmo? Existe essa grande movimentação acontecendo, uma biblioteca é instalada ao lado do fogão na Cabana - deve haver alguma manobra que eu possa fazer para acessar os recursos que se instalam também dentro de mim. Usar palavras para falar de coisas que não se apresentam para como palavras é bastante difícil. Mas me parece que é esta também a manobra da Cabana, é esta a manobra das traduções, me sinto absolutamente obrigada a pelo menos tentar. Escrevo esse texto para tentar ter uma fala mais técnica, para investigar e responsabilizar o uso das palavras (no caso, o acaso), para saber me defender, para tentar pensar como pensa uma obra que é viva, e, principalmente, para agradecer.

Devo, então, começar por insistir no Acaso.

Acaso não é sorte, não é cagada, não é sentar no meio fio e ficar coçando o saco, esperando que alguém apareça com o sapatinho de cristal.

O acaso que acredito que se relaciona profundamente com a Cabana e com Rubens é aquele que esconde em seu mistério, em sua aparente falta de ordem, uma unidade nova e profunda. É o acaso explorado pelos sistemas dinâmicos irregulares de Artur Avila, por exemplo. O acaso que em suas primeiras camadas não apresenta causalidade nem finalidade, mas uma trilha de sucessivas perguntas que só são respondidas por novas perguntas. Fernand Deligny escreve em O Aracniano

“Melhor seria falar da atração pelo vago. Vago é uma palavra que parece ter origens

díspares, o que confere vastidão e diversidade ao eco que ela produz. Vaga é a onda

na superfície da água, vago é o espaço vazio, o que o espírito tem dificuldade em

apreender, enquanto vagar é andar ao acaso”. Vagar então supõe um violento estado

de abandono das finalidades retilíneas, da necessidade de respostas, das relações predatórias - e o acaso se apresenta então como o território onde este vagar pode existir. Me parece ter endereço no acaso, no mistério, naquilo que existe sobre nossos chapéus, o campo arqueológico explorado por Rubens.


 

01. CABANA: LINGUAGEM E ACASO

Gostaria que refletissem sobre o estatuto especial de um livro que é destinado a olhos que não podem lê-lo e foi escrito com uma mão que, em certo sentido, não sabe escrever. O poeta ou o escritor que escreve para o analfabeto ou para o muçulmano, tenta escrever o que não pode ser lido, põe o ilegível no papel. Mas é bem isso que torna sua escrita mais interessante do que a que foi escrita para quem sabe ou pode ler.

Agamben, O Fogo e o Relato

 

Como sistemas irregulares dinâmicos, então, o acaso é composto por elementos caóticos e regulares interseccionados. No caso da matemática, em uma primeira camada tudo aparenta ser só caos: os elementos que sugerem a presença de alguma ordem aparecem na medida em que uma investigação muito profunda é dedicada ao objeto caótico.

Estar atento ao acaso ou, estar em constante investigação do acaso, no caso de Rubens e da Cabana, significa a investigação de uma linguagem que permeia todo aparente caos e articula dentro dele uma lógica própria. Talvez seja este o invisível de quem falamos em alguns almoços no Atelier. Talvez esteja nesses aparentes detalhes (que assim se parecem por nossa indisposição de colocá-los em perspectiva) o que é profundamente essencial. Não sei dar nome a este essencial - o melhor jeito que encontro de cercá-lo é pensando nele como penso sobre o que Rubens diz do que acontece nele enquanto desenha. O essencial talvez tenha sua morada nesta linguagem irredutível. Ver a Cabana, seus processos, como ela respira e pulsa, me faz pensar que Rubens o interesse de Rubens por esta linguagem não é apenas o de um curioso que deseja saber citar bordões em uma língua morta. Não.

Os limites dessa linguagem são contemplados e alargados na própria construção da

Cabana. Talvez talento seja saber falar esta língua, mas não entendê-la. Talvez loucura seja saber ler esta língua e não saber traduzi-la nem para si próprio. E talvez o que acontece na origem de uma obra, na feitura da Cabana, é a salvaguarda desta língua de forma viva, articulada na plástica, posta em campo para continuar pensando problemas reais.


 

02. CABANA: TRABALHO E ACASO

“Criar uma escultura é um gesto vegetal, é o rastro, o percurso, a aderência em potência, o fóssil do gesto feito, a ação imóvel, a espera (...) - ponto de vida e ponto de morte.” - G. Penone

O trabalho certamente não acontece por acaso. Mas o acaso pode servir para se opor ao projeto-pensado, em relação ao trabalho. Rubens sempre fala sobre o sacrifício de abandonar o querer. Acredito que ele fala de um querer muito específico, o querer que só permite se permite agir com finalidade, com perspectiva de fechamento, de encurtamento de distâncias. Um querer com cabresto, o querer afiliado ao projeto-pensado.

Que o agir advenha sem intermediação do querer situa o querer intermediário. Enquanto intermédio nos fala do que interrompe, intermediário parece falar do que se encarrega de garantir uma continuação.

Deligny, O Aracniano

Em vários momentos durante a construção da Cabana, ouvi Rubens dizer “não pensa, para de pensar, faça!”. Óbvio que não é um discurso anti-pensamento. Existe MUITO pensamento em tudo que é feito na Cabana. Imagino que Rubens esteja tentando coibir o pensamento tão enraizado em nós, que existe na epistemologia de uma relação predatória com o trabalho, do trabalhar PARA.

“Mas seria possível dizer que a aranha tem o projeto de tecer sua teia?

Não creio. Melhor dizer que a teia tem o projeto de ser tecida. 

Deligny, O Aracniano

E porque o acaso estaria na outra ponta desta corda? Ora, porque se a teia tem o projeto de ser feita, ela certamente não o fará. É preciso que alguém perceba existência deste projeto, sua importância, pense-o, enxarque-o de questões do mundo real, questões urgentes, e então se ponha a trabalhar na construção da teia.

"Avagar-se de” é um sinônimo de "dedicar-se a”. O acaso se relaciona com o trabalho a partir do momento em que Rubens cria o espaço, os recursos e a impessoalidade para ser capaz de converter acaso em ocasião. Em coisa. Em coisa viva.


 

03. CABANA: ESPAÇO E ACASO

“Sem dúvida há 'ordem' e ‘razão' (...). Mas podemos senti-lo, há ainda outra coisa. Outra coisa que não é a ausência de ordem ou razão, mas seu deslocamento”. Didi-Huberman, Ser Crânio.

Fazer a estrutura. Depois fazer as manobras poéticas. A estrutura é a própria manobra poética, e as manobras poéticas são essencialmente estruturais.

A ordem na Cabana é absolutamente presente, visível na ausência de qualquer manobra decorativa. E ao mesmo tempo, a ordem na Cabana, deslocada, é difícil de colocar em palavras. Deslocada porque estamos acostumados a associar ao lógico tudo aquilo que é útil, tudo aqui que tem função. A Cabana costura sua trama lógica com fios produzidos do excesso, da sobra (“O único suporte que possibilita a rede é a brecha, a falha. Se se tratar de uma janela, a rede se torna cortina” - Deligny).

Uma das definições do dicionário filosófico chama de estrutura um todo formado a partir de fenômenos solidários, tais que cada um dependa dos outros, e pode ser aquilo que é apenas na e pela sua relação com eles. Ou seja, o todo não é apenas a soma da combinação de suas partes, mas esta gera ainda uma terceira coisa. A Cabana não apenas articula sobras, mas cria em seu organismo seu próprio excedente, e este é parte estrutural e vital do espaço.

A dificuldade de discernir o dentro e o fora. Talvez isso se relacione com a ideia de descobrimento: tirar para revelar o novo. A cabana é, de forma não literal, um espaço caracol. Na ausência de Dentro e Fora, uma série de outras configurações se

apresenta.

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