Antirreferencial

29 de março de 2018

 

 

Vozes que se perdem na noite

Barulhos de automóveis 

Tento escrever de outro jeito 

É impossível não ser eu aqui 

Eu quer sempre se expressar

Para deixar de ser eu

Tenho que me exorcizar

Estupro de mim em mim

Me expor por fora 

Correndo por fora de mim

Perco o sono 

Perco a volta 

Me lembro de restos de textos nunca escritos 

Talvez o não-eu esteja onde deixei de lado a escrita

A escrita que ficou longe de mim 

Descabada -i nacabada, incabada, desenterrada, alma exumada no me meio da noite no cemitério do meu corpo

Entendo que a poesia reside entre eu estar acordado e dormindo 

Vertigem de um lugar real onde não posso estar presente

Porque é maior que eu

O texto definitivo de mim é ruim

O texto definitivo de mim

É desinstrução - em desacordo -

Me transgride: não consigo não falar de mim: sou um prisioneiro de mim, de minhas falácias, o outro não existe para mim, não consigo sair deste jazigo, urro sozinho dentro da minha pele, quanto mais dor, mais enterro as garras desgastadas e insuficientes das minhas incapacidades, a escrita — na verdade eu dentro de dizer não digo nada, sei que não me é dado o direito de me proferir, me proferisse não estaria aqui para contar o feito, ainda assim... arranho a caixa preta deste texto em nome de testemunhar, ainda que seja impossível o testemunho, sei disso, lanço fora o único combustível que tenho em pleno voo, assim, sem saída, asfixiado, amassado contra mim, prensado de dentro para fora, invado o que não pode ser dito de mim, em posse desta coisa-viva horrorosa que sou eu: vislumbro um farol piscando em alto mar de carne — retomando, a escrita, desatando o nó, a coisa mesma sem lugar algum vai indo sozinha sem dizer mesmo jamais, o que quer dizer

Não posso dizer, não posso testemunhar, seria o fim, a escrita me engana, me Confina, somos todos prisioneiros de dizer, dizer me prende numa rede insolúvel de palavras incontestáveis de minha ignomínia, neste maldito texto sou arrastado para fora de mim, enxurrada de caralhos que não dizem nada que eu já não saiba de mim. Onde está o que não sei de mim? Do outro? Do outro que se expressa aqui mesmo agora, este lugar que não está aqui neste momento, se estivesse estaria paralisado, não me moveria mais pois seria somente movimento. Quero me Afundar vivo dentro do poço que cavei-fez-se eu: até estourar as amarras, os arrimos do meu ser e me fundar outro de mim, afundar num mar sem tréguas, areia movediça de agradar, seduzir o outro - maldita demanda de falar sempre para algo fora de mim, mundo imundo de responder, torto, resquícios, estouro os cadeados do armazém, o depósito, lá dentro estou sendo velado, luto para ter meu corpo de volta, minha matéria-carniça, minha jagunçada está à solta na noite a caça de mim. Um dia tive fala: agora a fala me detém numa prisão de segurança máxima. Confinado num quartinho exíguo amargo meu único lugar que é a mais absoluta mudez.

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