Texto de aniversário 

Res - 29 de agosto de 2018 

 

 

Senti profunda vontade no meio da noite de falar da primeira vez que li Hamlet de Shakespeare, não entendi nada, mas o rumor de folhas começaram a se ouvir em mim de um lugar mágico, que mesmo que não alcançasse o que estava lendo, aquilo me impactou, talvez para muito além do que eu pudesse prever, pois depois disto veio Nietzsche, Fernando Pessoa, ainda não entendia nada do que lia, sentia na verdade que era devorado por aquilo, aquilo era muito maior que eu, eram personagens de um tempo mítico, um tempo em que o humano em nós se enlevou até os céus, empunhava a ascensão. Talvez o primeiro livro mesmo que me penetrou na carne e a abriu de verdade foi Herman Hesse, O lobo da estepe, ele me fez ler um pouco mais fundo dentro de mim, as palavras e a atmosfera que me guiariam pelo mundo espiritual de maneira decisiva (Gurdjieff: todo pensamento místico e etnológico foi seminal, tipo Mircea Eliade) — aqui vale uma tentativa de definir o que passou a ser o espírito para mim, passou a ser um modo muito poderoso de estar no mundo mesmo que sangrando, sair andando, enquanto andava ia me suturando, isto mesmo passou a ser o espírito para mim. Nunca vou esquecer Maria (Lobo da estepe), e tudo que ela representou para mim e ainda representa, para cada livro uma passagem crucial, uma travessia de morte; depois Dostoiévski - um Dostoiévski muito específico de Crime e Castigo, para ser mais preciso ainda Sônia, a Rússia de Sônia, — que ecoaria muito mais tarde em a lenda da fortaleza Surami de Paradjanov. Depois veio a paulada de Heidegger, que li por anos a fio da minha vida, Lia como se lê um romance, lia enquanto palavras pesadas como chumbo iam me cicatrizando por dentro de traumas terríveis da minha adolescência. Sinto que fui sendo refeito de feridas muito profundas pela leitura e peja escrita simultaneamente. Os filmes também foram vitais, litúrgicos na minha formação, vi Nostalgia e Sacrifício no cinema quando estrearam no Brasil — eles dilataram minha capacidade de diálogo interno, lubrificaram meus olhos de um azeite para ver, lubrificarem minha máquina visual que hoje tem vida própria, o que vejo não é mais o que eu vejo, mas o que meu olho vê, órgão autônomo. Meu olho é apenas um olho que vê ainda que eu não possa explicar o olho que se denomina olho. Coisas vivem em mim a minha revelia. É mais terrível, a vida quis existir em mim, expulsou de mim qualquer tentativa de não expor o problema em sua complexidade máxima, com isto sou um espelho para o outro, sei que o outro percebe que o estou vendo. Não sei como o outro se enxerga através de mim, e na maioria das vezes, isto gera muito medo. Há muitos heróis literários, procuro o próximo que me desferiu o golpe mortal: claro que a mitologia em cima de Hölderlin e da loucura me afetaram. A loucura atravessou minha vida, e fugi dela como o diabo foge da cruz. Beuys foi uma descoberta fundamental. O Brasil foi outra descoberta fundamental, saber que tenho uma pátria e uma língua, isto foi uma conquista difícil, haja visto que somos todos colonizados, destruir o olho colonizado foi uma vitória sem precedentes, ainda que minha formação seja quase toda alemã. A Alemanha me ajudou a descobrir-me brasileiro, me fez um homem nacional. Do Brasil. Como brasileiro me comovi lendo Clarice, me comovi lendo Mário Schenberg, chorei ouvindo Pierrot Lunaire de Schoenberg pela primeira vez, (tinha 18 anos) realmente a Alemanha marcou minha vida, (Goethe marcou minha vida - não Dr Fausto, mas a atmosfera instaurada por ele de amplitude - já antecedia toda ideia que desenvolveria mais tarde de sistêmico) pulei de Schenberg (físico) para Schoenberg (música) quase sem perceber. Bem mais tarde a descoberta da história da arte me marcou, história da arte como diálogo no tempo. Como genealogia de traumas essenciais do humano posto em forma.

E mais recentemente Agamben e Warburg me permitiram dar um salto tão esperado em direção sem volta para o que mais quis na vida toda, que é existir em estado de ser vão. Claro que não poderia deixar de falar de psicanálise, mas muito mais do que clínica, psicanálise como aventura intelectual, psicanálise como constructo poético de Freud e Lacan. Claro que deixei de lado pessoas que amo profundamente, mas esse recorte singelo diz muito do meu percurso - e hoje sei que estou muito mais para Fiodor Karamazov do que para o filho Aliêksei.

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