Texto de agradecimento

 

29 de julho de 2018

 

 

Queria agradecer por ser ingrato

Queria agradecer às forças maiores que eu por eu ser e não saber o que fazer com isto

Queria agradecer por fracassar todo santo dia em ser maior que eu

Queria agradecer a Deus, mas não sou digno o suficiente para superar ser grato! E aí sim realmente seria grato.

Queria agradecer aos meus ancestrais, aos que vieram antes de mim, por contribuírem para que eu pare em pé mesmo que cambaleando, queria agradecer a todos que vieram antes de mim e fracassaram também na tarefa absurda de melhorar sem recursos nenhum, a afundarem. Mas ao afundarem, tocaram em outros que, também inquietos, foram ainda mais fundo mas ainda assim fracassaram. De fracasso em fracasso o homem agradecido enche o frasco (de uma substância gasosa e inflamável — só existente em profundezas íntimas de quem se sujeita a ir, mesmo não sabendo onde vai dar, mesmo na cegueira quase absoluta) —— sim esta substância existente neste lugar, entre duas almas separadas pelo tempo, porém unidas por um ideal, um lapso, uma interrupção, uma qualquer coisa, coisinha, agradecimento por estar vivo, pelo sangue estar vivendo dentro de mim, mergulho no sangue da raça humana, na língua que me fala, humildemente peço passagem aos meus demônios, peço passagem à língua, a língua que me abra as portas secretas de seus porões, de seus portões, de suas amarras para que eu possa entoar o pedido impedido por tanto tempo de ser eu: isto é saber que sou coisa nenhuma. Sendo coisa nenhuma, ainda posso ser mais insignificante, assim passarei pela porta. (dentro do mínimo de mim, do ingrato que sou, do pecador, do homem podre que sou, vil, enrolado no arame farpado da carne humana, meto-me a querer escrever em língua portuguesa o que é ser-me. Para quê? Para quê querer-me ser? Quiçá um outro! Um outro-me mesmo. Mesmo mesmo inverto a ordem de ser eu. Agradecimento: quero me engrandecer, me desmerecendo. Não vai funcionar assim, assim a língua não cede passagem, não é uma estratégia, tenho que abrir mão de me desmerecer, aceitar quem sou, ainda que não seja nada, vou abrir mão deste nada, sem ilusão de que posso convencer alguém de que estive aqui. Aqui sou só eu mesmo, isto é: inválido. Insuficiente, inconcluso, merda estou a andar em círculos, o cerco fecha-se sobre mim, queimadas minhas últimas chances de fazer a coisa falar, dizer seu nome secreto. Não adianta enrolar, aqui isto não existe, na pré língua o dizer é sempre inaudito. Não tem entre linhas quando já estou fudido. Esta é a diferença entre estar fudido e morrer numa cadeira, sentado como se não fosse comigo a tragédia. Pelo menos sei que não tenho saída me desmerecendo ou não? Me enaltecendo ou não? Positivo ou não? Negativo ou niilista? Vou por aqui, mesmo que seja ali, indo por ali. Estou na direção errada sempre, porque ainda que certa, seria errada. Indo a esmo, a língua diz o que quer, ainda que eu não saiba realmente ler o que está escrito aqui. Sendo escrito, verbalizado, inscrito, inferido, desmembrando a partícula elementar da língua, destronando as conexões, desligando alguma coisa essencial para que outra possa brotar, brotamento — enquanto espero o texto, escrevo — o texto que quero não pode ser este: O TEXTO DEVERIA ME DIZER, esclarecer algo definitivo sobre mim, mas hoje sei que isto não é mais possível, porque não existe um razoável de mim: me tornei uma pessoa irrazoável, porém grata. Lixo isto tudo. A vírgula entre eu e o que eu tenho para dizer, espaço minúsculo que sei que nunca vou ultrapassar por ser pequeno demais. Este pequeno demais me Mata, este pequeno espaço entre eu e eu, sei que nunca vou dar conta, quanto menorzinho este espaço mais infinitamente estarei longe de mim. Maldita aritmética inalcançável — intraduzível, indescritível, em minha insuficiência máxima não consigo mais respirar — assim engasgado, ponho para fora de uma vez o espinho que me detinha de dizer: não há como dizer. Sabemos disto desde sempre. Não adianta enrolar, dar linha na vara, a coisa não corre, não alça, não voa, esquisita coisa em minha frente, imprópria, vulto, o chão some embaixo de meus pés, Caio lentamente, lentamente, ganho tempo para ter o que dizer, num lugar onde a noção de ganhar é outra. Desperdiço minha única chance, não importa quantas chances eu tenha, não entrarei aí. Eu estou barrado para mim eternamente. Cada palavra guarda um segredo intransponível assim que escrita, dita, como não dizê-la ao escrever, ao escrever descrevo a não escrita, e desdigo o escrito que poderia estar aqui escrito. Porra: como assim, como, como, como, engulo até o talo...engulo, engulo, não consigo escapar, dotar a letra de significado, romper o silêncio do coito, conspícua, a língua engravida o dizer de um dizer em outro dizer nunca dito. Malfeita a língua não fala: enrodilha o conteúdo numa forma quem nunca se esquentará, estará fria, gelada.

Camadas e camadas de tecido humano sobre a língua, o gás da língua escapa de qualquer aceitação possível, incontido vaga entre som e sentido, entre a vassoura e vaso vasto de minha: onde não consigo mais — estou ali mesmo que não acesse, estou ali ainda que não saiba. Ali está em mim mesmo sem corpo. 

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